
por Leticia Costa Estore
Os Transtornos de Personalidade (TP) expressam um dos maiores impasses da prática clínica contemporânea. Reconhecidos por padrões persistentes e inflexíveis de cognição, emoção e comportamento, esses transtornos resultam em sofrimento expressivo e prejuízo funcional em múltiplas áreas da vida do paciente e de seus familiares (Beck et al., 2017).
Além de sua cronicidade e da elevada comorbidade com outros quadros, pessoas com transtornos de personalidade comumente manifestam resistência ao tratamento. Nesse âmbito, a avaliação psicológica assume um papel central e inegociável, servindo tanto para o diagnóstico preciso quanto para estruturação terapêutica estratégica. Este artigo integra evidências atuais sobre a avaliação em TPs, discute o destaque da fundamentação teórico-prático e revela a contribuição inovadora da Escala Clínica da Personalidade – Versão Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (ECLIPse-HiTOP) para a psicologia clínica.
O papel da avaliação psicológica nos TPs se mostra de extrema importância, uma vez que avaliar indivíduos com TPs é uma tarefa complexa que exige instrumentos válidos, sensíveis e, acima de tudo, alinhados às teorias mais flexíveis de psicopatologia. Os padrões de TP são profundamente enraizados, muitas vezes sendo percebidos pelo indivíduo como naturais ou coerentes com seu modo de ser. Essa falta de autocrítica reduz a busca espontânea por tratamento e demanda uma abordagem avaliativa diferenciada (Barlow et al., 2018).
Nesse contexto, uma avaliação psicológica adequada deve ser criteriosa e considerar aspectos fundamentais do funcionamento do paciente, tais como:
- Padrões duradouros e inflexíveis de funcionamento: é preciso ir além de sintomas circunstanciais. Os TPs manifestam-se de modo estável ao longo do tempo e em múltiplos contextos, requerendo uma análise profunda de padrões comportamentais e emocionais consistentes.
- O impacto interpessoal: em razão da percepção reduzida de prejuízo próprio, as características do TP geram significativo sofrimento nas relações. A avaliação complementar fornecida por familiares ou parceiros (heteroavaliação) torna-se essencial para obter uma visão ampla do funcionamento.
- Comportamentos defensivos durante a avaliação: a sensibilidade à crítica, a dificuldade de introspecção ou a desconfiança própria de certos traços de personalidade podem levar o paciente a atenuar seus problemas. Ferramentas projetivas ou instrumentos com abordagem dimensional são especialmente úteis para contornar vieses.
- Comorbidades abrangentes: a coexistência de TPs com transtornos de humor, ansiedade, uso de substâncias ou transtornos alimentares salienta a importância do diagnóstico diferencial. Por isso, a avaliação precisa ser ampla e completa, identificando todas as facetas da psicopatologia.
O Modelo HiTOP e a Perspectiva Dimensional
Diante das limitações das categorias diagnósticas rígidas, como as apresentadas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e na Classificação Internacional de Doenças (CID), a pesquisa avançou para modelos dimensionais e flexíveis. O HiTOP (Hierarchical Taxonomy of Psychopathology) é um desses modelos que propõe uma organização hierárquica da psicopatologia, agrupando sintomas e traços em dimensões amplas, como internalização, externalização e desorganização do pensamento.
Essa perspectiva oferece uma visão mais integrada e precisa do funcionamento psicológico, permitindo ao clínico compreender os padrões implícitos de modo mais dinâmico do que a simples inspeção de critérios categóricos.
Inspirada e orientada por essa visão hierárquica e dimensional, a Vetor Editora publicou o ECLIPse-HiTOP, um instrumento atual destinado à avaliação de traços clínicos e padrões de funcionamento associados aos TPs.
O que o ECLIPse-HiTOP oferece à sua prática?
Trata-se de um instrumento psicométrico robusto que atende às demandas da clínica moderna, apresentando os seguintes diferenciais:
- Avalia dimensões de personalidade: é baseado no modelo HiTOP, permitindo a mensuração de traços que se organizam de maneira hierárquica.
- Compreensão da organização de traços: permite compreender como os traços patológicos se ordenam no indivíduo, e não apenas se eles estão presentes.
- Diferenciação de perfis: auxilia na especificação de perfis clínicos complexos, oferecendo clareza em casos de alta comorbidade. Isso se mostra relevante, pois existem indivíduos que partilham de diferentes traços que estão presentes em diferentes TPs, muitas vezes não preenchendo todos os critérios diagnósticos de um único transtorno.
- Planejamento terapêutico: favorece a preditividade de possíveis impasses na aliança terapêutica, orientando o planejamento de intervenções mais assertivas.
Com o ECLIPse-HiTOP, a comunidade de profissionais ganha acesso a uma ferramenta de avaliação mais atualizada, alinhada às discussões internacionais e às demandas de uma clínica que busca precisão diagnóstica e eficácia terapêutica.
A avaliação psicológica dos transtornos de personalidade não é apenas uma fase operacional, e sim o fundamento sobre o qual o sucesso terapêutico será construído. Instrumentos modernos como o ECLIPse-HiTOP representam um avanço significativo ao integrar o modelo dimensional mais flexível, oferecendo ao clínico uma visão mais rigorosa e sofisticada do funcionamento psicológico da pessoa avaliada.
Ao combinar uma avaliação robusta, munida de ferramentas eficazes e validadas, com um manejo clínico cuidadoso focado na construção da aliança terapêutica, que permanece central para o sucesso das intervenções, o profissional fortalece sua prática e amplia a qualidade da assistência psicológica oferecida.

Sobre a autora
Leticia Costa Estore é psicóloga formada pelas Faculdades Integradas de Bauru (FIB). Pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC). Tem formação complementar em Terapia Afirmativa, Sexualidade e Análise do Comportamento.
Referências
American Psychological Association. Spotlight: Issue 88. American Psychological Association, [s.d.]. https://www-apa-org.translate.goog/pubs/highlights/spotlight/issue-88?_x_tr_sl=auto&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt-BR&_x_tr_pto=tc.
Barlow, D. H., Durand, V. M., & Hofmann, S. G. (2018). Psicopatologia: uma abordagem integrada (8ª ed). AMGH.
Beck, A. T., Davis, D. D., & Freeman, A. (2017). Terapia cognitiva dos transtornos da personalidade (3ª ed). Artmed.
Carvalho, L. de F. (2025). ECLIPse-HiTOP: Escala Clínica da Personalidade — Manual (versão Hierarchical Taxonomy of Psychopathology). Vetor Editora.

