
por Tania Maria da Cunha Doutel Barreto
2 Impactos cognitivos e funcionais do TCE grave
O TCE grave pode cursar com lesões focais e difusas. Lesões frontotemporais, comuns em mecanismos de golpe e contragolpe, tendem a comprometer atenção, memória, planejamento, flexibilidade cognitiva, regulação emocional e comportamento social. Já a lesão axonal difusa, decorrente de forças mecânicas de aceleração e desaceleração, frequentemente produz lentificação cognitiva, dificuldades de concentração, prejuízos na velocidade de processamento e fadiga mental.
Além disso, é frequente a ocorrência de Amnésia Pós-Traumática (APT), caracterizada por desorientação, incapacidade de registrar novos eventos e oscilação comportamental. Nesse período, o paciente pode apresentar atenção reduzida, desorganização cognitiva e dificuldade em sustentar atividades por longos intervalos. Essa condição reforça a necessidade de instrumentos breves e sensíveis para avaliação inicial.
A literatura aponta que déficits neuropsicológicos pós-traumáticos influenciam diretamente o prognóstico, interferindo no retorno ao trabalho, na autonomia funcional e no estabelecimento de relações sociais adequadas. Dessa forma, um mapeamento cognitivo precoce contribui para maior precisão na definição de prognóstico e planejamento terapêutico.
3 NEUPSILIN como ferramenta de avaliação breve no pós TCE grave
O NEUPSILIN é um instrumento de rastreio que avalia múltiplos domínios cognitivos em aproximadamente 40 minutos. Sua estrutura contempla atenção, memória, linguagem, habilidades visuoespaciais, raciocínio lógico e aspectos das funções executivas. Essa amplitude, combinada ao tempo reduzido de aplicação, torna-o adequado para pacientes com baixa resistência cognitiva, como ocorre nos estágios iniciais pós TCE grave.
Uma das vantagens do NEUPSILIN é sua capacidade de oferecer informações funcionais relevantes sem exigir esforço prolongado do avaliado. O teste permite delimitar rapidamente déficits evidentes, identificar áreas preservadas e auxiliar na tomada de decisões sobre encaminhamentos e intervenções. Além disso, suas versões e seus protocolos padronizados favorecem comparações longitudinais, aspecto essencial para monitoramento da reabilitação.
Por ser objetivo e estruturado, o instrumento reduz variáveis que poderiam interferir na avaliação, como fadiga, dispersão e instabilidade comportamental, permitindo um retrato confiável do estado cognitivo inicial. Isso o torna particularmente útil em ambientes clínicos, hospitalares e de reabilitação, nos quais o tempo e as condições de aplicação são limitados.
4 Contribuições para o planejamento da reabilitação neuropsicológica
A avaliação inicial por meio do NEUPSILIN orienta o estabelecimento de metas terapêuticas individualizadas. Quando o teste indica prejuízos atencionais relevantes, por exemplo, as intervenções podem priorizar estratégias de autorregulação, tarefas graduadas de atenção sustentada e orientação externa. Nos casos em que se destacam déficits de memória, o plano pode incluir treinos de codificação ativa, uso de pistas visuais e estratégias compensatórias.
Da mesma forma, quando há impacto significativo nas funções executivas, a reabilitação pode contemplar organização de rotinas, planejamento de tarefas, exercícios de flexibilidade cognitiva e manejo de impulsividade. As informações obtidas no rastreio também auxiliam na distinção entre déficits diretamente relacionados ao trauma e alterações secundárias, como ansiedade, irritabilidade ou sintomas afetivos.
A integração entre avaliação breve e reabilitação permite ajustes contínuos conforme o paciente evolui. Comparações entre avaliações pré e pós-intervenção fornecem indicadores objetivos de progresso, auxiliando na tomada de decisões clínicas e na comunicação com demais profissionais da equipe interdisciplinar.
5 Considerações finais
O NEUPSILIN constitui ferramenta valiosa para a avaliação cognitiva inicial de pacientes com lesões traumáticas graves. Sua rapidez, sensibilidade e abrangência o tornam adequado para momentos em que instrumentos longos são inviáveis. Ao fornecer um panorama claro das funções preservadas e comprometidas, o teste contribui para o planejamento de intervenções neuropsicológicas e apoio ao prognóstico funcional.
A utilização integrada de rastreio cognitivo e reabilitação neuropsicológica favorece a autonomia, a qualidade de vida e a reinserção social do paciente. Assim, o NEUPSILIN se destaca como recurso importante nas etapas iniciais do cuidado, oferecendo suporte técnico relevante para profissionais da Psicologia e da reabilitação.

Sobre a autora
Tania Maria da Cunha Doutel Barreto é psicóloga clínica, (CRP 06/25959), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental pela FAMERP, em Neuropsicologia pelo IPECSSJRP e em Avaliação e Reabilitação Cognitiva pelo HCFMUSP. É especializanda em Perícia Forense pela FAMERP.

