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Entrevista: O uso de telas na infância: como fazer um bom uso

Menina usando um smartphone debaixo do cobertor durante a noite. A imagem representa o uso excessivo de telas na infância, abordando temas como tempo de tela, sono infantil, saúde mental, desenvolvimento cognitivo, dependência de dispositivos eletrônicos e o papel dos pais na educação digital. Ideal para conteúdos sobre bem-estar infantil e tecnologia.

por Espaço Psi & Rafaela Cassiano

Sabemos que o uso de telas está cada vez mais presente na vida das pessoas, incluindo crianças bem pequenas. Mas como isso pode afetar o desenvolvimento infantil? Convidamos a Psicóloga Rafaela Guilhermo Monte Cassiano para conversar com a gente sobre esse assunto que, cada vez mais, merece a atenção de pais, educadores e profissionais da saúde. Rafaela é psicóloga clínica e pesquisadora colaboradora na FMRP-USP. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Tratamento e Prevenção Psicológica, atuando principalmente nos seguintes temas: desenvolvimento humano, psicologia da saúde, aprendizagem e educação.

Rafaela, quais os impactos que o uso de telas traz para o desenvolvimento na primeira infância?

Rafaela Cassiano: São muitos os impactos negativos para o desenvolvimento infantil. Podemos citar alguns: atrasos na linguagem, dificuldades de atenção e foco, problemas de sono, risco de obesidade, além de dificuldades socioemocionais.

Como se dá o atraso na linguagem e cognição?

Rafaela Cassiano: Quando a criança está em frente à tela, ela não precisa se comunicar, o que reduz as interações verbais e atrasa o desenvolvimento da fala, bem como o desenvolvimento de funções executivas como planejar, organizar e memorizar. Ainda existe a questão de que a alternância rápida de estímulos pode levar a déficits de atenção.

E com a questão do sono? Como isso impacta o desenvolvimento?

Rafaela Cassiano: A população, de modo geral, tem enfrentado problemas de sono desencadeados pelo uso de tela. Isso acontece em razão da luz azul, que atrapalha a produção de melatonina. Na infância, isso pode implicar vários prejuízos no desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social da criança.

Você mencionou o risco de obesidade…

Rafaela Cassiano: Sim, esse é outro ponto que merece atenção. Aliás, o sedentarismo imposto pelo uso de telas não só propicia o risco de obesidade, mas também problemas físicos, decorrentes da má postura, e motores, resultantes da falta de treino dos movimentos. Problemas de visão também têm sido detectados em um grande número de crianças pequenas.

E quanto às dificuldades socioemocionais?

Rafaela Cassiano: O uso de telas dificulta o desenvolvimento de habilidades interpessoais, à medida que substitui o contato com o mundo real. A criança não precisa interagir com outras pessoas e essa privação pode se manifestar por meio de problemas de comunicação, dificuldade em tolerar frustrações, falta de autoconfiança e até mesmo agressividade, o que poderá impactar significativamente as relações sociais e familiares da criança.

Como os pais, cuidadores e educadores podem perceber se há prejuízos e como devem buscar auxílio?

Rafaela Cassiano: É preciso observar a criança e, se perceberem algo que possa sinalizar um prejuízo ao desenvolvimento, deve-se buscar ajuda profissional.

E como prevenir?

Rafaela Cassiano: Controle do uso de telas. É claro que não temos como excluir a tecnologia da vida das crianças, mas temos como acompanhar e controlar o uso, para que seja saudável e possa contribuir para o desenvolvimento. Dessa forma, a recomendação é de que crianças menores de 2 anos não façam uso de telas. E crianças entre 2 e 5 anos utilizem por, no máximo, uma hora diária, sendo esse uso supervisionado e com foco em conteúdos educativos, evitando as telas antes de dormir e durante as refeições.

Já que o uso de telas faz parte da realidade das crianças e não temos como excluir essa interação com a tecnologia, qual seria a orientação para um uso equilibrado e que contribua para o desenvolvimento saudável da criança?

Rafaela Cassiano: Acredito que a primeira orientação, e talvez a mais importante, seja priorizar as atividades offline/analógicas (brincadeiras, jogos, leituras, atividades gráficas, contato com a natureza etc.). E que o uso da tela seja uma forma de interagir com a criança (por exemplo, assistir a um filme/animação juntos) e não como um substituto da presença humana. No entanto, crianças aprendem mais com exemplos do que com regras, dessa forma, recomendo que os adultos também controlem seu próprio tempo de tela, sendo um exemplo para a criança.

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