
por Francisco José de Oliveira Neto
A linguagem é um instrumento que ultrapassa a função de expressão ou de comunicação. Ao se fundar no simbólico, a linguagem permite que o homem se constitua e constitua a própria significação de si e do mundo. Segundo Lacan (1953/1998), “é o mundo das palavras que cria o mundo das coisas”.
Enquanto ser de linguagem, o sujeito surge entre a articulação dos significantes dados pela cultura. Por esta razão, buscar compreender a cadeia significante apresentada nas “fake news” contribui para a compreensão das formas de subjetividades da atualidade, bem como da constituição do laço social.
A produção em massa da verdade ou do falso não se restringe mais aos territórios demarcados pelos grandes meios de comunicação, tampouco está no centro dos interesses da sociedade subjetivada na dimensão do espetáculo. Da mesma forma, a análise histórica da contemporaneidade passa, cada vez mais, pelo modo como a subjetividade é capturada no mundo digital, meio pelo qual a produção de “fake news” se insere nas estratégias de dominação.
O crescimento exponencial das novas tecnologias e do acesso a elas criou uma verdadeira revolução na maneira como a sociedade se informa e se comunica, permitindo o envio de mensagens instantâneas e serviços de voz e vídeo em nível global. A Internet e o crescimento das mídias sociais não inventaram o fenômeno da desinformação, mas criaram um ambiente propício para que houvesse uma difusão em massa de notícias falsas, em velocidade nunca antes vista na história da humanidade.
Na ordenação do simbólico, a verdade adquire valor de Lei que aponta limites, disciplina o gozo e permite a formação do laço social na medida que impõe a presença do outro e da morte. A verdade é castração que submete o sujeito a sua finitude e a sua impossibilidade de gozo infinito. Assim, a verdade seria em outros tempos, um entrave no gozo capitalista. Por mais que o detentor do capital fosse ao mesmo tempo, o detentor do gozo, esse não poderia ser total porque esbarrava na verdade.
O discurso aparelha o gozo. Esse fato lança uma proibição no gozo que o disciplina e civiliza. Quando a lei organiza o gozo, ela determina o que pode e o que não pode ser feito. As regras delimitam os modos de gozo. Esse desvio produz um circuito entrópico, movimento do gozo que produz um algo a mais.
É nesse contexto que Lacan (2008) introduz o conceito de Mehrlust, o mais-de-gozar, formulando a partir do conceito Marxiano de mais-valia, Mehrwert. Trata-se aqui de uma dimensão de perda para o sujeito que, ilusoriamente, mantém a ideia que há algo a ser recuperado, um mais-além, por assim dizer, um mais-que-gozar.
Algo desse gozo não é passível de ser contabilizado. É um gozo supostamente perdido pelo sujeito em posse do outro. A verdade fica recalcada e velada. Assim, Lacan vai dizer que a função do “objeto a” é a de renúncia ao gozo. Essa função aparece exatamente em decorrência do discurso, a renúncia é então, efeito do discurso.
A pós-modernidade foraclui a verdade ao criar estratégias de suspensão da castração no universo simbólico. O discurso capitalista levado a esses termos não promove laço social. Ao contrário, ele engendra uma ruptura entre os sujeitos e a relação passa a ocorrer só por meio dos objetos.
Nesse contexto, não é mais o sujeito barrado que vai ao encontro dos objetos. Ao contrário, são os objetos que vão ao encontro do sujeito. Há assim uma troca de lugares que privilegia o lugar da mercadoria em detrimento ao sujeito. Nesse movimento perverso, as “fakes news” constituem mercadorias com valor de troca. Elas têm poder para suspender a castração, permitir o gozo sem limites e apagar a culpa da existência do outro, vez que esse também é destituído do seu lugar.
Nessa sociedade cujo discurso é controlado pelos dispositivos modernos, a produção do falso com efeito, de verdade não seria possível a todos, pelo menos na sua versão massificada. Por esta razão, a palavra manipulação se tornou corrente para denunciar interesses dos grandes veículos de comunicação. Manipular, na crítica, refere-se à roupagem que é dada à realidade a partir de um conjunto de técnicas que integram os dispositivos modernos.
Manipular os acontecimentos a forma e semelhança dos interesses econômicos e políticos. Diante das informações obtidas dos usuários da internet, serviços são oferecidos, como os “disparos em massa” pelo WhatsApp. Por meio desses, empresas com interesses econômicos e políticos podem produzir o conteúdo “certo” para alcançar seus objetivos.
Enquanto o sujeito atua no mundo digital, renuncia à sua liberdade, num movimento contraditório que caracteriza, segundo Étienne de La Boétie (2017), a “servidão voluntária”. Desta forma, a ideologia da liberdade de expressão é o caminho, no mundo digital, para o exercício da vigilância e do poder sobre o sujeito. Byung-Chul Han (2018) chama isso de psicopolítica, a qual se caracteriza por “ler e controlar pensamentos”.
Os algoritmos são hoje o modo como se estrutura o sistema de vigilância. Governos e corporações privadas, sem que sejam percebidos, vigiam os modos de pensamento enquanto inserem os sujeitos numa bolha virtual.
Era digital, o panóptico e a política
Poderíamos facilmente observar que o jornalismo moderno, invenção do século 19, se constitui sobretudo na criação de um discurso que se mostra objetivo e transparente (a notícia), mas que funciona como um farol que ilumina o interior de seus leitores a fim de vigiar e disciplinar o campo simbólico, ou seja, controlar os sentidos produzidos sobre a realidade e disciplinar o olhar da sociedade. discutido por Jean Baudrillard (2005) e, por último, o digital.
Como observou o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2018), “se os presos do panóptico de Bentham têm ciência de estarem constantemente sendo observados por um vigia, ilusoriamente os habitantes do panóptico digital imaginam estar em total liberdade”.
O fenômeno da desinformação tem uma dimensão claramente política, na medida em que pode moldar o que tomamos por realidade.
Além disso, a era digital intensificou a capacidade de vigilância através de algoritmos e big data, permitindo que megacorporações e governos monitorem e influenciem as ações dos indivíduos em uma escala sem precedentes (Lippi Areas, Ramiro & Tamaoki, 2024). Essa vigilância constante cria um ambiente onde a liberdade é ilusória, pois as escolhas dos indivíduos são constantemente moldadas por forças externas que operam de maneira invisível.
A psicanálise, ao investigar os mecanismos inconscientes que governam o comportamento humano, oferece uma lente crítica para entender como o panóptico digital afeta a subjetividade. A internalização da vigilância pode levar a um estado de ansiedade e conformidade, onde os indivíduos ajustam seus comportamentos para se alinhar às normas percebidas, muitas vezes sem uma consciência plena desse processo (Han, 2018).
Portanto, a análise psicanalítica do panóptico digital revela não apenas os mecanismos de controle, mas também as implicações profundas para a formação da identidade e a autonomia individual. A desinformação, nesse cenário, atua como uma ferramenta poderosa para manter o status quo, ao mesmo tempo em que perpetua a ilusão de liberdade e escolha. Assim, a compreensão crítica desses fenômenos é essencial para resistir às formas sutis de dominação que caracterizam a sociedade contemporânea (Lippi Areas, Ramiro & Tamaoki, 2024).
O panóptico, conceito analisado por Michel Foucault em Vigiar e Punir (1975), representa um modelo de vigilância inspirado na estrutura de Jeremy Bentham, no qual a sensação de estar sempre sendo observado induz à auto-regulação e disciplina, ilustrando o poder invisível nas sociedades modernas.

Francisco José de Oliveira Neto
Mestrando em Psicologia, Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, GO (2022); Especialista em Neurociência, Faculdade Campos Elísios (FCE), São Paulo, SP (2020); Psicomotricidade Aplicada à Educação, Faculdade Brasileira de Educação e Cultura (FABEC), Goiânia, GO (2021); Psicopedagogia Institucional e Clínica, Faculdade Brasileira de Educação e Cultura (FABEC), Goiânia, GO (2012) e Docência do Ensino Superior, Faculdade Brasileira de Educação e Cultura (FABEC), Goiânia, GO (2010).
Graduando em Psicologia, Faculdade Ésper (ÉSPER), Goiânia, GO (2024); Graduado em Filosofia, Centro Universitário Ítalo Brasileiro (UNIÍTALO), São Paulo, SP (2021); Graduado em Pedagogia, Faculdade INET, Salvador – BA (2015); Bacharel em Teologia, Escola Superior de Teologia (EST), São Leopoldo, RS (2009); Psicanalista, Associação Nacional de Psicanálise (ANPC), Brasília, DF (2016); Membro do corpo Freudiano, Goiânia, GO (2023).
Atualmente é Professor de Pós-graduação na Faculdade Fractal – Graduação e Pós-Graduação (FRACTAL) em Goiânia, GO. Consultor de TD no Grupo Odilon Santos, Goiânia, GO. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Fundamentos da Educação, História da Educação, Teorias do Desenvolvimento da Aprendizagem, Metodologia Científica, Filosofia e Psicanálise. Atende como Psicanalista no Espaço Ser Corpo, tendo experiência com jovens e adultos. Assessor Educacional do Centro de Ensino Superior Galáxia, Goianésia, GO.
Referências
Baudrillard, J. (2005). A sociedade de consumo. Edições 70.
Han, B.-C. (2018). Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Relógio D’Água.
Lacan, J. (2008). O Seminário, livro 16. De um ao outro (1969-70). Jorge Zahar.
Lacan, J. (1998). Escritos. Jorge Zahar.
Lippi Areas, M., Ramiro, F., Tamaoki, M. (2024). Vigilância e controle na era digital: Uma análise crítica. Revista de Estudos Sociais (12(3), pp. 45-67).

