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Entrevista Samila Marques Leão – Crises Emocionais

Entrevista, Samila Marques Leão

É graduada em Psicologia pela Faculdade Santo Agostinho (2006) e mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É especialista em políticas de assistência social voltadas à infância e à juventude, além de atuar como docente no ensino superior. Atualmente, é fundadora de um instituto particular de cursos em Psicologia e Educação, sediado em Teresina-PI.

 

  1. Ao longo da vida, enfrentamos situações que mexem com nossas emoções, por exemplo, realizar provas, resolver problemas de trabalho, lidar com conflitos com familiares, entre outras. Como podemos identificar se estamos lidando de maneira inadequada com nossas emoções diante dessas situações desafiadoras?

R – Podemos identificar que não estamos lidando de forma adequada quando passamos por uma dificuldade que faz parte da vida cotidiana, porém não conseguimos gerenciá-las. Isso acaba gerando um adoecimento mental, um sofrimento mais prolongado que leva à tristeza, à ansiedade, ao medo e isso se torna contínuo, frequente e com uma intensidade que compromete a vida da pessoa. Quando é que uma prova na escola costuma ser um problema? Quando a pessoa passa de um estado que é ficar preocupado com a prova, uma vez que é algo que exige certa preocupação, ou seja, ter que estudar, dedicar-se, ter boas notas etc. No entanto, quando aquela prova passa a ser vivenciada com muito sofrimento, é aí que, de fato, a pessoa precisa ter muita cautela e refletir: será que estou com sofrimento mental? É alguma dificuldade que eu realmente preciso de orientação e apoio? Eu consigo dar conta? Existe um sofrimento que isso causou em minha vida? Trata-se de algo que gerou uma dificuldade para voltar às atividades normais, seja no trabalho, seja com os filhos? E isso vai gerando uma série de transtornos, no que a pessoa passa a se preocupar quando a intensidade e a frequência desse sofrimento mental e emoções começam a trazer dificuldades na vida.

 

  1. Atualmente, observa-se um aumento do número de pessoas que passam por crises emocionais. A que fatores podemos associar esse aumento?

R – Hoje, os problemas cotidianos estão muito expostos nas redes sociais. Em questão de poucos minutos, é possível saber o que está acontecendo do outro lado do mundo: ver pessoas em guerra, enfrentando sofrimentos intensos – experiências que mexem com a vida das pessoas, tornando-as vulneráveis a dores emocionais. Nesse cenário, fala-se muito sobre problemas emocionais, e as pessoas estão se identificando com esses problemas e essas dificuldades, questionando-se se estão diante de problemas cotidianos, de dores que fazem parte da existência humana ou se, de fato, elas estão sofrendo um transtorno mental. A conscientização faz você pensar: eu tenho esse problema? Eu tenho essa dificuldade? A partir do momento que você (um influenciador, um médico, um pesquisador) divulga e torna as pessoas cientes de um transtorno, elas podem se identificar, e muitas realmente podem até ter o transtorno. Elas sofreram a vida toda e nunca tiveram um diagnóstico, e que bom que elas encontraram um diagnóstico, porque agora vão poder ter um tratamento adequado. Elas estão identificando que podem ter um transtorno e que existe a possibilidade de existir um tratamento.

 

  1. Em que momento se torna importante buscar ajuda profissional?

R – A crise emocional caracteriza-se como uma desorganização psíquica muito intensa e abrupta, que rompe o equilíbrio do paciente. Nesse momento, ele não consegue ter uma resposta adaptativa. Quando a pessoa não tem essa resposta adaptativa, ela paralisa ou pode ter agitação psicomotora. A crise, portanto, é uma resposta intensa a uma situação muito adversa. Nesse momento, o paciente pode progredir para a crise emocional e, em decorrência disso, precisar de orientação profissional. O que se observa é que as crises têm se tornado cada vez mais intensas, logo, diante de um risco de vida para o paciente ou para outras pessoas, será necessário contar com a estrutura do Samu ou de um profissional de emergência da área médica para estabilizar esse paciente. Os primeiros-socorros psicológicos são importantes, mas se não forem suficientes, será preciso acionar a emergência psiquiátrica. Buscar ajuda profissional está muito relacionado ao comprometimento de nossas atividades diárias. Deve-se sempre ficar atento à intensidade e à frequência: antes, a pessoa tinha episódios de tristeza por conta de um problema que surgiu na vida dela; hoje, tem ficado todos os dias tristes; antes, sentia uma angústia no peito diante de uma dificuldade no ambiente de trabalho; hoje, sente essa angústia quase todos os dias. Nesse momento, é importante buscar ajuda profissional para identificar se está começando a desenvolver um transtorno psicológico que realmente esteja comprometendo suas atividades diárias.

 

  1. Após a estabilização do estado emocional, como a pessoa deve proceder para manter a qualidade de vida?

R – Há um gráfico construído pela psicóloga Ticiana Paiva, que trata sobre o que é uma crise. Ela afirma que o profissional deve identificar o que gerou a crise e seu pico, que é a fase mais aguda na qual surgem reações emocionais de raiva, medo, agitação psicomotora e confusão mental. Nesse pico, é importante que ocorram os primeiros-socorros psicológicos, o acolhimento e o gerenciamento da crise até a pessoa desacelerar, momento em que entra na chamada fase basal. Quando o paciente estabiliza é o momento em que o profissional vai acionar a rede de apoio desse paciente, identificando quem é a pessoa com a qual ele pode contar no momento de crise, por exemplo. Nessa etapa, trabalham-se a orientação e o encaminhamento em que o profissional identifica se a crise foi única ou se é recorrente na vida da pessoa. Se for uma crise recorrente, o paciente precisará de orientação especializada, como um encaminhamento para a psicologia ou para a psiquiatria. É essencial destacar a importância de um tratamento continuado com um profissional da área da saúde mental e os benefícios desse tratamento, como aprender a se autorregular e autorregular a própria crise. A adesão ao tratamento pode promover maior qualidade de vida, porque o paciente vai aprender a gerenciar sua crise, identificar o que a ativou, quais os pontos de maior vulnerabilidade e potencialidade, além de ampliar sua rede de apoio. Esses são os ganhos de um processo terapêutico continuado.

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