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O uso de telas faz mal — mas faz mal utilizá-las na avaliação?

Um homem barbudo, sentado em ambiente interno e iluminado pela luz de telas, segura um smartphone enquanto esfrega o olho com expressão de cansaço e esforço visual. Ao fundo, monitores desfocados reforçam a presença constante de dispositivos digitais. A cena simboliza os possíveis efeitos do uso prolongado de telas — como fadiga ocular e sobrecarga mental — e provoca reflexão sobre até que ponto o uso de tecnologias digitais, inclusive em processos de avaliação, pode impactar o bem-estar e a qualidade da experiência do usuário.

por Victória Faraj, Psicóloga e Coordenadora Nesplora Brasil

Sempre que falamos em tecnologia na prática clínica, uma preocupação surge quase automaticamente: o uso excessivo de telas faz mal.

Essa afirmação, amplamente discutida na literatura, costuma vir acompanhada de outra pergunta que nem sempre é explorada com o mesmo cuidado:
o uso de telas na avaliação neuropsicológica também faria mal?

 

Diferenciando exposição indiscriminada de uso clínico intencional

Na clínica, é fundamental diferenciar exposição indiscriminada de uso intencional, controlado e orientado por objetivos clínicos.

Grande parte das evidências que apontam efeitos negativos do uso de telas está relacionada a contextos como:

  • consumo prolongado e não mediado;
  • multitarefa digital constante;
  • privação de sono;
  • uso recreativo excessivo.

Esses cenários são distintos daqueles encontrados em um processo avaliativo estruturado, no qual o uso de recursos digitais tem como finalidade provocar respostas cognitivas e comportamentais específicas, em tarefas cuidadosamente planejadas, com tempo, estímulos e demandas controladas.

 

O que a literatura aponta sobre instrumentos digitais

A literatura internacional tem destacado que instrumentos digitais podem, inclusive, reduzir vieses presentes em avaliações exclusivamente manuais, ao:

  • ampliar a precisão temporal;
  • padronizar a apresentação dos estímulos;
  • permitir a coleta de métricas menos acessíveis em testes tradicionais, como variabilidade de resposta, tempo de reação e padrões comportamentais ao longo da tarefa.

Além disso, o meio digital possibilita criar situações avaliativas mais próximas da realidade cotidiana, mantendo controle experimental. Ambientes simulados, tarefas dinâmicas e estímulos concorrentes podem ser apresentados de forma padronizada — algo mais difícil de reproduzir apenas com papel e lápis.

 

Tecnologia não é neutra — e exige critérios

Isso não significa que o uso de telas seja neutro ou isento de cuidados. Pelo contrário: exige critérios claros de indicação, compreensão das limitações do instrumento, adequação à população avaliada e integração com outras fontes de informação clínica.

Quando mal indicado, qualquer recurso — digital ou não — pode empobrecer a avaliação.

Como discutido por Diaz-Orueta e colaboradores, o avanço da neuropsicologia digital envolve tanto oportunidades quanto desafios, exigindo análise crítica e fundamentação científica.

A discussão, portanto, talvez não seja simplesmente “telas fazem mal?”, mas sim: como, quando e com qual finalidade estamos utilizando recursos digitais na avaliação?

No contexto da realidade virtual aplicada à avaliação neuropsicológica, plataformas como a Nesplora têm sido utilizadas para integrar controle experimental e maior proximidade com demandas do cotidiano, alinhando-se às discussões sobre validade ecológica apresentadas na literatura.

Para profissionais interessados em compreender melhor como essas soluções podem ser integradas à prática clínica, é possível buscar informações adicionais junto à equipe técnica.

 

Pontos para refletir na sua avaliação

Refletir sobre o uso de telas na avaliação não significa abandonar o cuidado clínico, mas qualificá-lo. Assim como qualquer instrumento, a tecnologia não é boa nem ruim por si só. O que faz a diferença é a pergunta clínica, o contexto e a forma como o recurso é utilizado.

Essa discussão se articula com o debate anterior sobre a integração de diferentes modalidades avaliativas e conduz à próxima reflexão da série:
quando a avaliação pede mais do profissional e do contexto do paciente?

Sobre a autora

Victória Faraj é Psicóloga (06/198148) pela Universidade Metodista de São Paulo. Consultora de Avaliação Psicológica na Vetor Editora há mais de 6 anos com diversas certificações no uso de diversos instrumentos de avaliação, e outras formações da área. Certificação internacional no Innovation Experience 360º Program. Atual coordenadora da Nesplora no Brasil.

 

Contato:

victoria.fonseca@vetoreditora.com.br
@victoriafaraj.psi

Referências

Todosoway, T. P., & Todosoway, R. G. (2012). The impact of engagement with social networking sites on cognitive skills. Computers in Human Behavior, 28(5), 1748–1754.

Germine, L., Reinecke, K., & Chaytor, N. S. (2019). Digital neuropsychology: Challenges and opportunities at the intersection of psychology and technology. The Clinical Neuropsychologist, 33(2), 271–289.

Malloy-Diniz, L. F., Fuentes, D., Mattos, P., & Abreu, N. (2018). A avaliação neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed.

Parsons, T. D. (2015). Virtual reality for enhanced ecological validity and experimental control in the clinical, affective and social neurosciences. Frontiers in Human Neuroscience, 9, 660.

Rizzo, A. A., & Koenig, S. T. (2017). Is clinical virtual reality ready for primetime? Neuropsychology, 31(8), 877–899.

Sbordone, R. J., & Guilmette, T. J. (2019). Ecological validity: Prediction of everyday and vocational functioning from neuropsychological test data. Applied Neuropsychology: Adult, 26(3), 197–215.

Wilmer, H. H., Sherman, L. E., & Chein, J. M. (2017). Smartphones and cognition: A review of research exploring the links between mobile technology habits and cognitive functioning. Frontiers in Psychology, 8, 605.

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