
por Victória Faraj, Psicóloga e Coordenadora Nesplora Brasil
Avaliar o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) raramente é simples. Para muitos profissionais, essa complexidade aumenta conforme a faixa etária e as comorbidades envolvidas.
Uma criança inquieta em sala de aula e um idoso que chega ao consultório relatando dificuldades crônicas de organização, foco e produtividade podem compartilhar o mesmo diagnóstico — mas a forma como o TDAH se manifesta ao longo do desenvolvimento é diferente e deve ser considerada na avaliação.
Como o TDAH se manifesta ao longo do desenvolvimento
A literatura descreve variações importantes na apresentação dos sintomas conforme a idade:
- Na infância, os sintomas tendem a ser mais externalizantes, com predomínio de hiperatividade motora e impulsividade.
- Na adolescência e na vida adulta, a hiperatividade frequentemente se transforma em inquietação interna, enquanto ganham destaque dificuldades de planejamento, controle inibitório e autorregulação emocional.
- Em adultos e idosos, os sinais podem ser mais sutis, muitas vezes mascarados por estratégias compensatórias ou confundidos com ansiedade, estresse ou declínio cognitivo leve.
Essas mudanças tornam a avaliação mais exigente e reforçam a necessidade de método e análise cuidadosa do contexto.
Por que não é possível “bater o olho” e diagnosticar TDAH
A avaliação de TDAH exige intencionalidade. Não é incomum que profissionais recebam pacientes com encaminhamentos equivocados ou diagnósticos feitos de forma apressada, baseados apenas na queixa inicial.
Ao longo do desenvolvimento, o transtorno deixa de ser apenas um conjunto de comportamentos observáveis e passa a se expressar também como alterações no funcionamento executivo.
Nesse cenário, avaliações baseadas exclusivamente em listas de sintomas ou em medidas pontuais de desempenho podem não captar aspectos fundamentais do quadro, como:
- a organização da atenção ao longo do tempo;
- a capacidade de inibição;
- a manutenção do comportamento orientado a objetivos;
- a autorregulação diante de demandas contínuas.
Funções executivas e o papel do comportamento durante a tarefa
A literatura aponta que instrumentos capazes de observar o comportamento em tarefas contínuas, com estímulos concorrentes e demandas sustentadas, tendem a ser mais sensíveis para identificar dificuldades que variam conforme a idade.
Não por acaso, cresce o interesse por instrumentos que consideram a chamada validade ecológica da avaliação, isto é, o quanto a tarefa se aproxima das exigências reais enfrentadas pelo indivíduo fora do consultório.
O risco de subdiagnóstico na vida adulta
No blog da Vetor Editora, a neuropsicóloga Edyleine Bellini discute os desafios e especificidades da avaliação do TDAH na vida adulta, chamando atenção para o risco de subdiagnóstico quando se utilizam apenas instrumentos tradicionais:
Leia o post: Por que precisamos falar de TDAH na vida adulta?
Da mesma forma, Jullyanna Cardoso reforça a importância de uma avaliação detalhada das funções executivas no processo diagnóstico, destacando que compreender como o paciente executa uma tarefa pode ser mais informativo do que saber apenas se ele acertou ou errou:
Leia o post: O papel crucial da avaliação detalhada das funções executivas no diagnóstico e tratamento do TDAH
Avaliar TDAH é observar mais do que acertos e erros
Instrumentos que avaliam atenção e funções executivas em cenários mais próximos da realidade — como ambientes ecológicos — podem contribuir para essa análise, especialmente quando integrados a testes em papel e online.
É importante lembrar que, durante uma avaliação bem planejada, dificuldades ou inconsistências no desempenho do paciente não significam, necessariamente, falha do instrumento. Muitas vezes, elas refletem os próprios limites impostos pelo transtorno, que só se tornam visíveis quando a demanda se aproxima da vida real.
Avaliar não é apenas medir se o paciente acerta ou erra, mas observar como ele se comporta diante de demandas contínuas, estímulos concorrentes e tarefas que exigem manutenção do foco ao longo do tempo — algo que muda significativamente conforme a idade.
O que fica dessa discussão
Refletir sobre essas diferenças não significa abandonar instrumentos já consolidados, mas ampliar o repertório clínico e alinhar melhor o método avaliativo à pergunta que se deseja responder.
Ao longo da prática, revisitar como o TDAH se apresenta em diferentes fases da vida pode ser decisivo para reduzir erros diagnósticos e fortalecer a qualidade do processo avaliativo.
Esse tema se conecta diretamente à discussão sobre como materiais de naturezas diferentes podem trabalhar juntos na avaliação — assunto que exploraremos em seguida.
Sobre a autora
Victória Faraj é Psicóloga (06/198148) pela Universidade Metodista de São Paulo. Consultora de Avaliação Psicológica na Vetor Editora há mais de 6 anos com diversas certificações no uso de diversos instrumentos de avaliação, e outras formações da área. Certificação internacional no Innovation Experience 360º Program. Atual coordenadora da Nesplora no Brasil.
Contato:
victoria.fonseca@vetoreditora.com.br
@victoriafaraj.psi
Referências
Barkley, R. A. (2015). Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. Guilford Press.
Faraone, S. V., et al. (2015). Attention-deficit/hyperactivity disorder across the lifespan. The Lancet Psychiatry, 2(6), 548–558.
Willcutt, E. G. (2012). The prevalence of DSM-IV attention-deficit/hyperactivity disorder. Neurotherapeutics, 9(3), 490–499.
Barkley, R. A., & Murphy, K. R. (2010). Impairment in occupational functioning and adult ADHD. Journal of Attention Disorders, 13(2), 114–126.
Parsons, T. D. (2015). Virtual reality for enhanced ecological validity in neuropsychological assessment. Neuropsychology Review, 25, 307–326.


