
por Camila Juliana Batista Nakasato
O câncer é reconhecido como uma condição crônica de curso frequentemente prolongado, marcada por tratamentos invasivos, incertezas prognósticas e possibilidade concreta de morte. Enquanto experiência global de adoecimento, repercute sobre dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais do sujeito e de seus familiares, o que evidencia a insuficiência de um modelo estritamente biomédico e a necessidade de uma abordagem biopsicossocial e espiritual centrada na pessoa (Schultz Danzmann et al., 2020; Hermes & Lamarca, 2013).
Nesse contexto, a psico-oncologia surge como subespecialidade da oncologia e campo interdisciplinar que integra conhecimentos da psicologia, da medicina e de outras áreas da saúde. Além de compreender, seu propósito é intervir nas respostas emocionais de pacientes, familiares e profissionais, bem como nos fatores psicológicos e sociais que influenciam o curso da doença (Assunção, 2023). A autora destaca que o câncer, por ser uma doença multifatorial, demanda cuidados que ultrapassam o manejo dos sintomas físicos, exigindo atenção às vivências subjetivas, aos vínculos e aos recursos de enfrentamento mobilizados ao longo do processo de adoecimento (Assunção, 2023). De modo convergente, Schultz Danzmann et al. (2020) descrevem que a atuação do psicólogo em psico-oncologia abrange desde o acolhimento do paciente e familiares, a comunicação entre equipe técnica, até o acompanhamento em cuidados paliativos e o suporte ao luto.
Entre os desafios ético-clínicos que atravessam o cuidado oncológico, destaca-se a comunicação de más notícias, entendidas como informações que alteram de forma negativa o projeto de vida e a expectativa de futuro da pessoa, incluindo diagnósticos de doenças graves, recidivas e situações de terminalidade (Isquierdo et al., 2021). Estudos apontam que muitos estudantes e profissionais de saúde não se sentem adequadamente preparados para comunicar más notícias, especialmente quando o conteúdo envolve a possibilidade de morte, o que pode gerar sofrimento para pacientes, familiares e para a própria equipe (Isquierdo et al., 2021; Hermes & Lamarca, 2013).
No âmbito dos cuidados paliativos, concebidos como abordagem que visa à qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças ameaçadoras da vida, a comunicação clara, honesta e empática é considerada um dos pilares do cuidado (Hermes & Lamarca, 2013). As autoras evidenciam, entretanto, que ainda é frequente a dificuldade dos profissionais em lidar com a finitude, o que favorece práticas como a conspiração do silêncio – dinâmica na qual informações sobre diagnóstico e prognóstico são omitidas ou suavizadas, geralmente com a intenção de “proteger” o paciente (Hermes & Lamarca, 2013). Tal prática, contudo, pode comprometer a autonomia, intensificar o sofrimento psíquico e fragilizar o vínculo de confiança entre paciente, família e equipe (Schultz Danzmann et al., 2020).
Paralelamente, a literatura tem destacado a relevância da espiritualidade e da religiosidade como dimensões importantes no enfrentamento do câncer. Oliveira et al. (2020), em revisão sistemática, identificaram que níveis mais elevados de bem-estar espiritual se associam à menor intensidade de dor e a estratégias de enfrentamento mais positivas em pacientes oncológicos. Em estudo qualitativo, Pallini et al. (2019) apontam que a espiritualidade é vivenciada pelos pacientes como fonte de esperança, sentido e ressignificação da experiência de adoecer, constituindo importante recurso na sustentação emocional diante do sofrimento.
No campo da psicologia da saúde, Gobatto e Araújo (2010) conceituam o coping religioso-espiritual como o conjunto de esforços cognitivos e comportamentais que utilizam crenças, práticas e vínculos religiosos ou espirituais para lidar com situações de estresse, como o diagnóstico e o tratamento de câncer. As autoras destacam que tais estratégias podem ser classificadas como positivas, quando associadas a conforto, suporte social e reorganização de significados, ou negativas, quando articuladas a sentimentos de punição, abandono divino e desesperança (Gobatto; Araújo, 2010).
Diante desse panorama, torna-se fundamental articular, no campo da psico-oncologia, a qualificação da comunicação – especialmente no que se refere à ruptura da conspiração do silêncio – com o reconhecimento da espiritualidade como dimensão relevante do cuidado e do enfrentamento do adoecimento oncológico.

Sobre a autora
Camila Juliana Batista Nakasato é graduada em Tecnologia de Finanças pelo IESB Bauru (2003), pós-graduada em Ciências Políticas pelo IBF – Instituto Brasileiro de Formação, e em Psicopatologia Junguiana pela Uningá. Tem formação em Psico-oncologia pelo Catavento Instituto. Atualmente é graduanda em Psicologia pela FIB Bauru (Faculdades Integradas de Bauru-SP).
Atua como estagiária no Centro de Equoterapia de Bauru e na Casa da Mulher de Bauru, com enfoque em práticas de acolhimento e apoio psicossocial a mulheres em situação de vulnerabilidade.
Tem interesse em Psicologia Analítica, Psicologia Fenomenológica, Psico-oncologia e estudos sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Terapia Assistida por Animais.
Referências
Assunção, A. l. C. (2023). Atuação e importância da psico-oncologia. Psicologia e Saúde em debate, 9(2), 292-304. https://psicodebate.dpgpsifpm.com.br/index.php/periodico/article/view/986
Gobatto, C. A., & Araújo, T. C. C. F. (2010). Coping religioso-espiritual em saúde: reflexões e perspectivas para a atuação do psicólogo em oncologia. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, 13(1), 52-63. https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582010000100005
Hermes, H. R., & Lamarca, I. A. (2013). Cuidados paliativos: uma abordagem a partir das necessidades. Ciência & Saúde Coletiva, 18(9), 2541-2549. https://www.scielo.br/j/csc/a/YXmF5MbX4bxnX9fVtqQ7bPn
Isquierdo, A. P. R., Miranda, G. F. de F., Quint, F. C., Pereira, A. L., & Guirro, U. B. do P. (2021). Comunicação de más notícias com pacientes padronizados: avaliação de desempenho de estudantes. Revista Brasileira de Educação Médica, 45(2). https://www.scielo.br/j/rbem/a/mBj46qsPfmCm9P7StfbXPSf
Oliveira, S. S. W., Vasconcelos, R. S., Amaral, V. R. S., & Sá, K. N . (2020). A espiritualidade no enfrentamento da dor em pacientes oncológicos: revisão sistemática. Brazilian Journal of Pain, 3(4), 331-337. https://www.scielo.br/j/brjp/a/r3GTjGSxbChGsBZqqmdG5VJ/?format=pdf&lang=pt
Pallini, A. C., Ottati, F., Cremasco, G. da S., & Cunha, F. A. (2019). Percepções de pacientes oncológicos sobre espiritualidade: um estudo qualitativo. Psicologia para América Latina, 32, 1-12. https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1870-350X2019000200008
Schultz Danzmann, Pâmela; Pinto da Silva, A. C., & Carlesso, J. P. P. (2020) Psico-oncologia e amparo a pacientes com câncer: uma revisão de literatura. Psicologia e Saúde em debate, 6(1), 244-255 https://www.psicodebate.dpgpsifpm.com.br/index.php/periodico/article/view/V6N1A17

