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O Burnout no Mundo Atual: Desafios e Perspectivas para Profissionais da Saúde

por Marlene Alves da Silva

Introdução

O burnout tem se tornado um dos principais fenômenos psicossociais da atualidade, afetando diretamente a saúde mental de trabalhadores em diferentes contextos. Com a aceleração das demandas laborais e o enfraquecimento das redes de apoio, cresce a importância de compreender suas causas, manifestações e estratégias de prevenção. Para psicólogos e profissionais da saúde mental, reconhecer as dimensões individuais e organizacionais desse fenômeno é essencial para uma intervenção eficaz.

O que é burnout e como se manifesta?

O termo burnout descreve uma condição associada ao estresse crônico no trabalho, caracterizada por exaustão emocional, distanciamento mental e prejuízos cognitivos e emocionais (Witte & Schaufeli, 2024). Inicialmente, era vista como uma síndrome restrita a profissões de cuidado, mas hoje é reconhecida como uma condição relacionada a qualquer ambiente de alta exigência produtiva.

Além disso, estudos recentes (Witte & Schaufeli, 2024; Stockinger, 2025) destacam que o burnout é resultado de um desequilíbrio entre demandas e recursos. Ou seja, quando o trabalhador enfrenta pressões constantes sem suporte emocional ou institucional adequado, ocorre uma erosão da energia vital e uma perda de engajamento.

Perspectivas contemporâneas sobre o burnout

Burnout sob a ótica da psicologia positiva

Pesquisas recentes, incluindo o consórcio internacional com mais de 40 países, têm associado a síndrome de burnout à teoria Job Demands-Resources (JDR). Esse modelo propõe que o trabalho deve ser visto como um sistema complexo, em que a sobrecarga de demandas e a falta de recursos psicológicos e organizacionais favorecem o adoecimento (Bakke & Demerouti, 2017; Vasquez et al., 2024).

Contudo, o engajamento surge como um importante fator de proteção. Profissionais com senso de propósito, autonomia e apoio institucional tendem a apresentar maior resiliência diante de pressões cotidianas (Bakke & Demerouti, 2017; Vasquez et al., 2024).

Estudos na América Latina e avanços no diagnóstico

Na América Latina, as pesquisas têm enfatizado a relação entre organização do trabalho e doenças mentais, especialmente em contextos com longas jornadas e falta de reconhecimento. No Brasil, há instrumentos validados para diferentes populações, possibilitando diagnósticos mais precisos e comparáveis internacionalmente.

Além disso, estudos demonstram o papel da psicologia positiva na promoção da saúde mental, destacando o desenvolvimento de esperança, engajamento e segurança psicológica como elementos centrais na prevenção (Vinueza-Solórzano et al., 2024).

Estratégias de prevenção e papel das organizações

Redesenho do trabalho e segurança psicológica

Entre as estratégias de prevenção, destaca-se o redesenho do trabalho, que envolve reestruturações em tarefas, relações e percepções cognitivas sobre o ambiente laboral. Essa abordagem busca equilibrar demandas e recursos, promovendo maior bem-estar.

Outro fator relevante é a segurança psicológica, entendida como o ambiente em que as pessoas se sentem seguras para expressar ideias, pedir ajuda e cometer erros sem medo de retaliação. Organizações que cultivam essa cultura tendem a reduzir significativamente os índices de esgotamento (Bandeira Júnior & Freitas, 2024).

Burnout e workaholism: uma relação preocupante

Pesquisas apontam que o workaholism (adição ao trabalho) pode ser um antecedente direto do burnout. Quando o profissional mantém dedicação excessiva e dificuldade de desconexão, aumenta o risco de prejuízos físicos e emocionais (Souza et al., 2024).

Por fim, abordagens terapêuticas baseadas em mindfulness, autocompaixão e equilíbrio entre vida pessoal e profissional têm se mostrado eficazes na prevenção e no tratamento, especialmente entre profissionais da saúde e da educação (Lyon & Galbraith, 2023).

Considerações finais

O burnout representa um desafio crescente para a psicologia organizacional e do trabalho, bem como da clínica. Mais do que tratar sintomas, é necessário compreender os fatores estruturais que sustentam o adoecimento. A atuação integrada entre profissionais, empresas e instituições públicas é essencial para a construção de ambientes laborais mais saudáveis, capazes de promover bem-estar e produtividade sustentável.

Sobre a autora

Marlene Alves da Silva é psicóloga clínica, pós-doutora em Psicologia Clínica pela USP-SP, mestre e doutora em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica pela USF-SP. Especialista em Saúde Mental pela UFRJ-RJ, especialista em Avaliação Psicológica e Psicologia do Trânsito pelo CFP, diretora da clínica Fênix e da Orient – Produtos e Soluções em Saúde Mental – Vitória da Conquista-BA, supervisora clínica e professora convidada em cursos de graduação e pós-graduação lato sensu, pesquisadora da área de Avaliação Psicológica, Clínica e de Trânsito.

Referências

Bakker, A. B., & Demerouti, E. (2017). Job Demands–Resources theory: Taking stock and looking forward. Journal of Occupational Health Psychology, 22(3), 273–285. https://doi.org/10.1037/ocp0000056

Bandeira Junior, E., & Freitas, C. P. P. de. (2024). Os papéis do redesenho do trabalho e da segurança psicológica na prevenção da síndrome de burnout. In A. C. S. Vázquez, C. P. P. de Freitas, & C. S. Hutz (Orgs.), Burnout hoje: O que sabemos e como podemos lidar com ele? Vetor Editora.

De Witte, H., & Schaufeli, W. B. (2024). Burnout: O que é? E o que não é? Em busca de prevalência, causas, consequências e soluções. In A. C. S. Vázquez, C. P. P. de Freitas, & C. S. Hutz (Orgs.), Burnout hoje: O que sabemos e como podemos lidar com ele? Vetor Editora.

Lyon, T. R., & Galbraith, A. (2023). Mindful self-compassion as an antidote to burnout for mental health practitioners. Healthcare, 11, 2715. https://doi.org/10.3390/healthcare11192715

Sousa, J. O. de, Mendonça, J. F., Santos, J. da S., Sá, F. P. F. de, Soares, W. D., Santos, J. H. B., Marinho, A. B., Pinto, V. S. da S. C., Magalhães, C. C. R. G. N. de, Pereira, F. R., Macedo, H. A. de, Fontel, Y. M., Campos, A. G., Alves, C. T. M., Martins, S. V. G., & Barros, W. C. S. de. (2024). Burnout, workaholism e qualidade de vida entre docentes universitários da área da saúde. Caderno Pedagógico, 21(10), e9343.

Stockinger, R. C. (2025). Burnout: Conflitos de valores éticos e alterações de identidade. Vetor Editora.

Vázquez, A. C. S., & Freitas, C. P. P. de. (2024). Burnout e engajamento no modelo JD-R: Normas brasileiras para BAT e UWES. In A. C. S. Vázquez, C. P. P. de Freitas, & C. S. Hutz (Orgs.), Burnout hoje: O que sabemos e como podemos lidar com ele? Vetor Editora.

Vázquez, A. C. S., Freitas, C. P. P. de, & Hutz, C. S. (2024). Burnout hoje: O que sabemos e como podemos lidar com ele? Vetor Editora.

Vinueza-Solórzano, A. M., Gómez-García, A. R., & Portalanza-Chavarría, C. A. (2024). Estudos de burnout em países da América Latina. In A. C. S. Vázquez, C. P. P. de Freitas, & C. S. Hutz (Orgs.), Burnout hoje: O que sabemos e como podemos lidar com ele? Vetor Editora.

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