
por Victória Faraj, Psicóloga e Coordenadora Nesplora Brasil
Ao longo da prática clínica, chega um momento em que percebemos que algumas perguntas simplesmente não cabem em um único formato de avaliação.
O paciente pode apresentar desempenho adequado em tarefas estruturadas, seguir regras, responder corretamente e, ainda assim, relatar (ou demonstrar) dificuldades importantes no dia a dia.
Sustentar atenção, lidar com múltiplos estímulos, adaptar-se a mudanças e manter desempenho ao longo do tempo são demandas comuns da vida real, mas nem sempre plenamente captadas por avaliações realizadas em contextos altamente controlados.
É por isso que a neuropsicologia tem avançado, não no sentido de substituir instrumentos clássicos, mas de expandir os contextos avaliativos, integrando materiais de naturezas diferentes — todos com validação científica — para responder melhor às perguntas clínicas.
Por que algumas perguntas exigem mais contexto
Nem sempre o que buscamos compreender na avaliação é apenas o resultado final. Em muitos casos, o que importa é observar:
- como o paciente sustenta o foco;
- como reage a distrações;
- como regula o próprio desempenho;
- como se adapta ao longo de tarefas contínuas.
Esse tipo de observação tende a ser mais difícil quando se utiliza apenas instrumentos altamente estruturados, ainda que essenciais e consolidados.
Integração de instrumentos e validade ecológica
Esse movimento de integração dialoga com a discussão sobre validade ecológica, que vem sendo abordada na literatura há décadas. A proposta é ampliar a capacidade da avaliação em representar demandas mais próximas do cotidiano, sem abandonar o rigor metodológico.
Na prática, isso significa reconhecer que:
- instrumentos clássicos permanecem fundamentais;
- mas, em alguns casos, podem ser complementados por tarefas com maior complexidade e maior proximidade de situações reais.
Realidade virtual como possibilidade complementar
Dentro desse cenário, recursos digitais e ambientes simulados vêm sendo discutidos como possibilidades complementares, justamente por permitirem observar o paciente diante de tarefas dinâmicas, com estímulos concorrentes e demandas sustentadas.
Soluções em realidade virtual, como as desenvolvidas pela Nesplora, têm sido utilizadas com esse objetivo: integrar controle e padronização com tarefas mais contextualizadas, alinhadas às discussões sobre validade ecológica apresentadas na literatura.
Uma reflexão necessária
Não se trata de abandonar o que já funciona — mas de somar recursos, integrar contextos e refinar a pergunta clínica para compreender melhor o funcionamento do paciente em situações diversas.
Em muitos casos, uma avaliação mais completa depende menos de “mais testes” e mais de escolhas bem fundamentadas, coerentes com a hipótese clínica e com as demandas reais do paciente.
Sobre a autora
Victória Faraj é Psicóloga (06/198148) pela Universidade Metodista de São Paulo. Consultora de Avaliação Psicológica na Vetor Editora há mais de 6 anos com diversas certificações no uso de diversos instrumentos de avaliação, e outras formações da área. Certificação internacional no Innovation Experience 360º Program. Atual coordenadora da Nesplora no Brasil.
Contato:
victoria.fonseca@vetoreditora.com.br
@victoriafaraj.psi
Referências
Chaytor, N., & Schmitter-Edgecombe, M. (2003).
The ecological validity of neuropsychological tests: A review of the literature. Neuropsychology Review, 13(4), 181–197.
Burgess, P. W., Alderman, N., Evans, J., Emslie, H., & Wilson, B. A. (1998).
The ecological validity of tests of executive function. Journal of the International Neuropsychological Society, 4, 547–558.
Sbordone, R. J., & Long, C. J. (1996).
Ecological validity of neuropsychological testing. Boca Raton: CRC Press.


