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Resenha do Livro Educação a Distância & Ensino Remoto: Ferramentas de Intervenção na Educação

por Marlene Alves da Silva

O ensino presencial do Brasil surgiu em 1808, ao passo que os cursos de educação a distância (EaD) surgiram de forma experimental em 1996, porém tiveram expansão nacional apenas em 2001. A fase pioneira, marcada por desafios decorrentes do desconhecimento e do preconceito, foi superada, uma vez que os diplomas obtidos em EaD têm o mesmo valor legal. Atualmente, o desafio está na estruturação da EaD para operar na transformação digital, que impacta a educação e a sociedade em geral. A formatação e a embalagem digital para conteúdos, atividades e suporte tutorial são definidores para a aceitação e a permanência do estudante nos cursos contemporâneos da EaD. No entanto, o ponto mais vulnerável do processo é o papel do professor, que precisa realizar a transição didático-pedagógica para as novas tecnologias e desenvolver competências de comunicação com alunos nativos digitais.

Com base nesse contexto, as professoras Thaís Zerbini e Raíssa Bárbara Nunes Moraes Andrade organizaram essa obra, com mais 14 colaboradores nacionais e internacionais. Com o objetivo de apresentar orientações teóricas, metodológicas e de práticas de atuação, as pesquisadoras reuniram estudos e reflexões sobre o panorama contemporâneo da Educação a Distância (EaD) e suas interfaces com a transformação digital, o desenvolvimento de competências, a gestão educacional e as políticas públicas. Os autores a consideram um manual de boas práticas que visa facilitar o acesso a profissionais e professores que trabalham com a educação a distância. O livro está dividido em nove capítulos, sendo os seis primeiros dedicados à prática profissional. Já o capítulo 7 apresenta relatos de experiência, ao passo que o oitavo capítulo aborda o futuro do uso de tecnologias digitais no trabalho e no ensino, finalizando com a legislação da educação a distância e do ensino híbrido na educação brasileira.

O capítulo 1, intitulado “Estratégias de aprendizagem: ferramentas impulsionadoras do aprender via tecnologias digitais”, de Lara Barros Martins, Thaís Zerbini e Cláudio Gaspar de Melo, discute os fatores que influenciam o processo de aprendizagem, destacando tanto o desenho do curso quanto as características cognitivas, comportamentais e afetivas dos aprendizes. Os autores exploram as estratégias de aprendizagem em relação aos objetivos educacionais, apresentando as principais taxonomias e classificações, bem como suas definições. Além disso, abordam formas de identificar e mensurar tais estratégias, comparando fatores e índices de confiabilidade de instrumentos destinados à avaliação das Estratégias de Aprendizagem (EA). O capítulo se encerra com a aplicação prática dos resultados obtidos e propostas de aprimoramento das estratégias de aprendizagem no ensino on-line. Nas considerações finais, há sugestão de reflexões sobre os temas abordados, acompanhadas de um anexo com a Escala de Estratégias de Aprendizagem (EEA), aplicada ao contexto universitário.

O capítulo 2, intitulado “A importância dos estilos de aprendizagem dos participantes no planejamento de cursos ofertados a distância”, escrito por Raíssa Bárbara Nunes Moraes Andrade e Thaís Zerbini, discute os benefícios de identificar as características dos participantes em ações educacionais, como o aumento da efetividade dos cursos, a transferência de conhecimentos, habilidades e atitudes. As autoras apresentam métodos para identificar e mensurar os estilos de aprendizagem, bem como suas contribuições para o planejamento da EaD, apoiados em resultados descritivos de uma aplicação da EEA em 135 alunos. O capítulo é finalizado com questões para reflexão e a apresentação da escala de Estilos de Aprendizagem em Contexto de EaD em Instituições de Ensino Superior (IES).

O tema “Gestão da permanência: do engajamento do feedback a professores e planejadores entre o presencial e o digital na educação brasileira” é a discussão de Cláudio Gaspar de Mello, Lilia Aparecida Kanan, Dyjalma Antonio Bassoli e Edilene Vieira Machado da Silva no capítulo 3, o qual aponta a permanência e a evasão estudantil no ensino superior, com base em dados do Mapa de Ensino Superior no Brasil (Semesp, 2019) dos cursos EaD da rede privada e pública. Os autores evidenciam a migração de alunos dos cursos presenciais para o EaD, destacando o desafio representado pelos elevados índices de evasão nessa modalidade, o que compromete a sustentabilidade financeira dos cursos e das instituições. A permanência do estudante é uma questão tão essencial quanto um obstáculo, em comparação à evasão em cursos presenciais e EaD. Os autores apontam o alto índice no EaD e as ferramentas que podem ser aplicadas tanto na modalidade presencial como a distância. A permanência, portanto, configura-se aspecto central e desafiador. Nesse contexto, são apresentadas ferramentas aplicáveis tanto na modalidade EaD quanto no ensino presencial, com ênfase no nível de satisfação do estudante em relação ao curso. Os autores descrevem instrumentos de mensuração dessa satisfação e a aplicação desses instrumentos, da importância de cuidados metodológicos no processo de coleta de dados em relação à satisfação do aluno e à gestão de permanência. O capítulo também aborda conceitos, características e recomendações acerca do uso do feedback no ambiente virtual como estratégia de gestão de permanência.

O capítulo 4, “Ambiente de ensino-aprendizagem e sua influência no desempenho de alunos e professores no ensino on-line”, é assinado por Lara Barros Martins e Elienay Eiko Rodrigues Umekawa. Esse ambiente de ensino-aprendizagem é composto por aspectos físicos e interacionais circundantes ao aluno/professor que influenciam o comportamento e os resultados obtidos quanto às atividades de ensinar e aprender. Os autores analisam esses aspectos físicos e interacionais que compõem o ambiente de ensino-aprendizagem e sua influência sobre o comportamento e os resultados de alunos e professores. Eles apresentam instrumentos de medidas específicas para a modalidade on-line, voltados ao diagnóstico dos aspectos do ambiente e discutem formas de aplicar os resultados obtidos na prática, com vistas ao aprimoramento das condições do ambiente de ensino-aprendizagem de estudantes e professores no meio digital. O capítulo se encerra com a apresentação da Escala de Barreiras e Facilitadores em EaD – Contexto: treinamento on-line.

Thaís Zerbini, Raíssa Bárbara Nunes Moraes Andrade e Lara Barros Martins analisam o “Impacto de ações educacionais ofertadas a distância no desempenho do estudante em contextos de educação e trabalho” no capítulo 5. A utilização das tecnologias como recursos institucionais, por si só, não garante a aprendizagem, tampouco a transferência de conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA). As autoras apresentam métodos de avaliação e mensuração da efetividade de ações educacionais a distância, iniciando pela definição de impacto em EaD, seus construtos correlatos e a diversidade de termos empregados. Além disso, ressaltam a importância de metodologias adequadas para a construção de instrumentos de medida, descrevem exemplos desses instrumentos e discutem sua aplicação prática, com ênfase em propostas de intervenções voltadas aos estudantes a partir dos resultados obtidos. O capítulo é finalizado com perguntas reflexivas e quatro anexos com escalas: 1) Escala de Transferência de Treinamento – IPGN – Contexto: Qualificação Profissional; 2) Escala de Transparência de Treinamento – Ação Cultural em Bibliotecas – Contexto: Qualificação Profissional; 3) Escala de Impacto do Treinamento em Profundidade – Eficiência Operacional – Contexto: Corporativo; e 4) Escala de Impacto do Treinamento em Profundidade – Contexto: Educacional.

As “Mudanças organizacionais e cursos ofertados à distância: uma relação possível?” são o tema do capítulo 6, de autoria de Raíssa Bárbara Nunes Moraes Andrade e Luciana Mourão. Nele são abordadas as ações de treinamento, desenvolvimento e educação (TD&E), estruturadas com base em três subsistemas: 1) avaliação de necessidades de ações instrucionais; 2) planejamento e execução; e 3) avaliação de treinamento. As autoras discutem formas de mensurar as mudanças organizacionais decorrentes de curso a distância, utilizando a Escala de Percepção de Mudança Organizacional (EPMO). O texto detalha as etapas de avaliação de treinamento voltados à obtenção de mudanças organizacionais, bem como os procedimentos de construção, coleta e análise de dados de entrevistas que permitem verificar tais mudanças. O capítulo apresenta ainda modelos de investigação, incluindo um modelo simplificado com os coeficientes de regressão e orientações para o uso da EPMO. As autoras concluem com reflexões sobre essa relação da tecnologia, infraestrutura e a sustentação de cursos on-line, além de anexos contendo instrumentos de percepção de mudança organizacional e roteiro de entrevista semiestruturada para avaliação de mudanças organizacionais.

O capítulo 7, “As tecnologias digitais de informação e comunicação no processo de ensino-aprendizagem: relato de experiências”, elaborado por Fabiana Maris Versuti, Marina Greghi Sticca, Mayra Antonelli Ponti, Rafael Lima Dalle Mulle e Cristina Costa-Lobo, discute a importância do papel das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) no processo ensino-aprendizagem, destacando sua influência na transformação das áreas de atividade humana em dimensões econômicas, políticas, culturais e sociais. Os autores apresentam três experiências: 1) o uso das TDIC na divulgação científica e na extensão universitária; 2) o uso de vídeos-relatos no contexto da formação continuada de professores; e, finalmente, 3) o projeto integra USP – Fundamentos para acolhimento no contexto universitário. Os relatos são descritos de forma didática, possibilitando replicação em outros contextos. O capítulo é encerrado com um resumo das TDIC utilizadas em cada experiência e há uma proposta de questões para reflexão.

O capítulo “Transformação digital: desafios para o trabalho e a educação”, de Marina Grechi Sticca e Francisco Roberto Sanchez Cavalheiro, discute a transformação digital como processo de adoção de tecnologias digitais voltadas à criação ou modificação de processos, produtos e serviços, com o objetivo de otimizar negócios e atender às novas demandas sociais e profissionais. Os autores relacionam esse fenômeno ao mercado de trabalho, destacando a ampliação das formas do teletrabalho e a necessidade de desenvolver competências digitais que acompanhem o ritmo das inovações tecnológicas. Essas competências envolvem o uso confiante, crítico e responsável das tecnologias da informação e comunicação (TIC), exigindo a integração de conhecimentos, habilidades e atitudes. O capítulo fecha com a apresentação de um quadro de referência sobre as competências digitais para a cidadania, seguido de questões reflexivas que instigam a análise dos impactos da transformação digital nos âmbitos educacional e profissional.

A obra é encerrada com o capítulo “Legislação da educação e distância e ensino híbrido: uma esteira de acontecimentos entre o presencial e o digital na educação brasileira”, de Dyjalma Antonio Bassoli, Edilene Vieira Machado da Silva e Alessandra Francaroli Peraz. O texto apresenta um panorama histórico e jurídico da educação a distância no Brasil, cujo marco inicial remonta a 1942, com o ensino secundário, estabelecendo-se até 1996, quando a modalidade foi incorporada ao ensino superior. Os autores analisam a evolução da definição legal da EaD, a partir da regulamentação dos arts. 80 e 81 da Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional (LDB) e discutem as reformulações temporárias implementadas durante o período de pandemia. Em seguida, abordam o ensino híbrido e as configurações estabelecidas em 2021 pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). O capítulo termina com questões reflexivas sobre os desafios e as perspectivas da integração entre as modalidades presencial e digital na educação brasileira.

A obra apresenta uma análise abrangente e integrada da Educação a Distância (EaD) no contexto brasileiro, articulando bases teóricas, evidências empíricas e reflexões críticas. Sua estrutura progressiva – do nível pedagógico ao institucional e legislativo – confere unidade e profundidade à discussão. O texto se destaca pela consistência metodológica e pelo diálogo entre teoria e prática, oferecendo contribuições relevantes para pesquisadores, gestores e educadores. Mais do que tratar de tecnologia, o livro propõe uma compreensão ampliada da transformação digital como processo pedagógico, formativo e social, orientado à inclusão e à inovação educativa.

Sobre a autora

Marlene Alves da Silva é psicóloga clínica, pós-doutora em psicologia clínica pela USP-SP, mestre e doutora em Psicologia com ênfase em avaliação psicológica pela USF-SP. Especialista em saúde mental pela UFRJ-RJ, especialista em avaliação psicológica e psicologia do trânsito pelo CFP; Diretora da Clínica Fênix e da Orient – Produtos e Soluções em Saúde Mental – Vitória da Conquista-BA, supervisora clínica e professora convidada em cursos de graduação e pós-graduação lato sensu; pesquisadora da área de avaliação psicológica, clínica e de trânsito.

Referências

Zerbini, T. & Andrade, R. B. N. M (2025). Educação a distância & ensino remoto: ferramentas de intervenção na educação. Vetor Editora.

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