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Resenha do Livro Neuropsicologia Cognitiva: Modelos Teóricos e Aplicações Em Avaliação e Intervenção

por Sonia Regina Baptista Cepellos

Organizada por Maciel Zortea, Luciane da Rosa Piccolo e Jerusa Fumagalli de Salles, esta obra tem por objetivo apresentar contribuições teóricas e pesquisas no campo da Neuropsicologia Cognitiva, desenvolvidas pelo Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva (NEUROCOG) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Estruturado em 15 capítulos, cada qual dedicado a um tema específico, o livro aborda aspectos relacionados a linguagem, memória, funções executivas, desenvolvimento infantil e condições clínicas como dislexia, Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA), afasias e ansiedade de leitura.
Na introdução, as autoras apresentam os conceitos de Neuropsicologia e Neuropsicologia Cognitiva, delineando seus objetivos e especificidades. Além disso, expõem o percurso do NEUROCOG – desde sua constituição e desenvolvimento até suas contribuições científicas, muitas das quais culminaram na elaboração de instrumentos de avaliação e na implementação de programas de intervenção.

O Capítulo 1, “Relações entre habilidades precursoras de alfabetização e desfechos de leitura e escrita nos anos iniciais”, apresenta “uma breve revisão da literatura sobre as relações entre os conhecimentos prévios à alfabetização e os desfechos em leitura e escrita ao longo dos aos iniciais” (p. 23). São abordadas algumas das principais tarefas e testes utilizados na avaliação da literacia emergente, entendida como o conjunto de habilidades e conhecimentos fundamentais para a leitura e escrita que as crianças desenvolvem antes da alfabetização formal, entre os quais o Instrumento de Avaliação das Habilidades Precursoras de Alfabetização – Pré-ALFA (Pereira, 2021; Pereira et al., no prelo) (p. 34) , bateria breve neuropsicológica que está sendo desenvolvida por pesquisadores do NEUROCOG e que tem por objetivo avaliar aspectos da Alfabetização Emergente em crianças pré-escolares e no início do processo de alfabetização. A importância do estudo da literacia emergente dentro da neurologia cognitiva diz respeito a uma melhor compreensão do processo de desenvolvimento da leitura e escrita antes e durante a alfabetização, favorecendo a identificação precoce das habilidades a serem estimuladas para um melhor desenvolvimento.

No Capítulo 2, “Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e dificuldades de leitura: o que dizem os estudos comparativos de desempenho neuropsicológico em crianças e o que informa a prática neuropsicológica?”, as autoras discorrem sobre estudos do desempenho neuropsicológico de crianças que apresentam sintomatologia do TDAH e de crianças com dificuldades de leitura, suas diferenças e semelhanças perante as habilidades neuropsicológicas, bem como os fatores de interferência mediante o caráter dimensional desses sintomas.

O capítulo 3, “Reconhecimento de palavras, fluência e compreensão de leitura textual: a importância da avaliação dos três subdomínios para o diagnóstico de transtornos na leitura”, aborda a importância do pleno conhecimento da definição e as características da dislexia, transtorno caracterizado por déficits na habilidade da leitura, para a realização da adequada avaliação das dificuldades encontradas no reconhecimento de palavras, fluência e compreensão de leitura textual. No referido capítulo, as autoras apresentam, além da definição e caracterização da dislexia, um relato em como realizar seu correto diagnóstico, tendo como premissa fundamental a avaliação dos três subdomínios da leitura, destacando a utilização dos instrumentos ANELE 1 – LPI – AVALIAÇÃO DE LEITURA DE PALAVRAS E PSEUDOPALAVRAS ISOLADAS; ANELE 5 – AFLeT – AVALIAÇÃO DA FLUÊNCIA DE LEITURA TEXTUAL; e ANELE 2 COMTEX – AVALIAÇÃO DA COMPREENSÃO DA LEITURA.

No capítulo 4, “Ansiedade de leitura e desempenho em leitura: decodificação, compreensão e fluência”, as autoras apresentam os principais resultados de estudos sobre ansiedade de leitura em crianças, abordando dados preocupantes com relação a esse desempenho, os quais conduziram o interesse pela pesquisa. Nesse contexto, a ansiedade de leitura se refere às sensações físicas e aos sentimentos negativos experienciados pela criança quando presente em situações que envolvam atividades de leitura, levando-as a evitar a participação em atividades relacionadas. Estudos referentes à relação entre a ansiedade de leitura e o desempenho de leitura são objetos de análise nesse capítulo, além de outros estudos empíricos realizados pelo NEUROCOG.

O capítulo 5, “Desenvolvimento cognitivo-linguístico na infância: relações com nível socioeconômico e ambiente linguístico familiar”, apresenta alguns dos principais resultados de pesquisas sobre a relação entre o nível socioeconômico (NSE) e o desenvolvimento neuropsicológico infantil, trazendo referências obtidas pelo NEUROCOG acerca não apenas das consequências diretas do NSE, mas também sobre os diversos fatores relacionados ao desenvolvimento neuropsicológico infantil. Ao longo do capítulo, destacam-se a influência do NSE sobre o ambiente linguístico familiar (ALF) e a relação desse ambiente com o desenvolvimento cognitivo-linguístico nas crianças.

O capítulo 6, “Promoção de habilidades de leitura e escrita e identificação precoce de dificuldades: contribuições da RTI para melhor desempenho acadêmico”, discute as dificuldades relacionadas à leitura e à escrita, cujas consequências estão associadas a uma maior vulnerabilidade socioeconômica, na medida em que restringem o acesso a melhores condições de desenvolvimento e comprometem o sucesso acadêmico. Em decorrência desse fator, identificar de maneira precoce essas dificuldades e trabalhar com intervenções especializadas se tornou fundamental na promoção do desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita. Nesse segmento, o referido capítulo, além de discorrer sobre os pressupostos básicos do Modelo de Resposta à Intervenção (RTI), que propõe identificar e prevenir as dificuldades de leitura e escrita, também apresenta o programa INELE, programa desenvolvido pelo NEUROCOG como uma intervenção de caráter preventivo destinada a promover e estimular as habilidades de leitura e escrita, identificando crianças em risco de apresentar dificuldades de aprendizagem da linguagem escrita. Com relação ao RTI, trata-se de uma abordagem cujo objetivo é identificar riscos de dificuldades de aprendizagem em crianças que necessitem de intervenções, estruturada em níveis que variam em intensidade e especificidade conforme a resposta dada às instruções e ao desempenho nas tarefas.

No Capítulo 7, “Avaliação de habilidades sociocomunicativas no TEA: aspectos neuropsicológicos, comportamentais e familiares”, as autoras discorrem sobre os déficits de linguagem observados em indivíduos com TEA e em familiares de pessoas com autismo, fazendo referência ao fenótipo ampliado do autismo (FAA). Estudos nessa área indicam que os comprometimentos não se restringem exclusivamente aos indivíduos com TEA, estendendo-se também a seus familiares. Em razão da falta de marcadores biológicos para identificar a TEA, seu diagnóstico é realizado por meio de uma avaliação tanto do comportamento como da apresentação dos principais sintomas, com destaque para os comprometimentos relacionados ao desenvolvimento das habilidades comunicativo-pragmáticas ou sociocomunicativas.

Em “Relações entre compreensão de leitura e funções executivas: possibilidades do modelo de rede”, oitavo capítulo do livro, os autores analisam a aprendizagem, apresentando-a como um fenômeno individual que acompanha as condições de vida de cada pessoa, considerando, ainda, a influência exercida pelo ambiente ao qual o indivíduo está exposto sobre seu processo de aprendizagem, reconhecendo que interferências de ordem psicológica e emocional podem desencadear comportamentos que favorecem ou dificultam o aprendizado. Dessa forma, o epicentro do capítulo são as relações entre a cognição e a aprendizagem, sobretudo as que envolvem a habilidade da compreensão da leitura e as funções executivas.

No Capítulo 9, “Relação entre memória de trabalho e funções executivas – do constructo às tarefas avaliativas e às implicações para a pesquisa em aprendizagem”, os autores descrevem como os constructos Memória do Trabalho (MT) e Funções Executivas (FE) se manifestam de maneira conjunta nas habilidades de leitura, escrita e matemática e em diferentes contextos teóricos e experimentais, tendo por objetivo apresentá-los de acordo com “o modelo de MT de Baddeley (2007, 2011, 2017) [RM1.1]e o modelo de FE de Fuster (2003, 2008)” (p. 156). [RM2.1]Uma compreensão aprofundada contribui para um entendimento mais acurado dos déficits presentes em transtornos de aprendizagem, favorecendo a elaboração das tarefas a serem destacadas, bem como a seleção adequada dos instrumentos de avaliação a serem utilizados, seja no contexto clínico, seja no âmbito da pesquisa.

O décimo capítulo, “Binding e atenção top-down no modelo multicomponente de memória de trabalho”, aborda o conceito de binding no âmbito da memória de trabalho, conforme proposto no modelo multicomponente de Baddeley, um dos mais proeminentes na área. Esse modelo contempla a integração de códigos multidimensionais não apenas da memória de trabalho, mas também da percepção e da memória de longo prazo.

Em “Associação semântica de palavras: da técnica às funções – estímulos para construção de avaliações/intervenções em neuropsicologia?”, título do capítulo 11, os autores apresentam dois estudos envolvendo associação semântica de palavras, técnica muito utilizada na Psicologia Cognitiva, especialmente na elaboração de tarefas de linguagem e memória. O primeiro estudo, que aborda as métricas da associação semântica de palavras, cujo objetivo é “descrever as informações sobre a associação semântica para palavras-alvo que foram originalmente palavras-associadas geradas a partir de uma lista de 88 palavras-alvo publicadas em estudo anterior” (Salles et al., 2008) (p. 188). Já o segundo estudo, sobre medidas de associação de palavras e priming semântico, que tem por objetivo “verificar se as medidas de associação semântica de palavras do primeiro estudo têm relação com o tempo de resposta (TR) durante a decisão lexical em um paradigma de priming semântico em amostra de adultos” (p. 194).

O capítulo 12, “O estudo do processamento léxico-semântico e da memória implícita através do paradigma de priming”, apresenta pesquisas realizadas pelo NEUROCOG acerca do efeito priming frente ao processamento léxico-semântico em crianças, em adultos saudáveis e em pacientes com lesões neurológicas, bem como sua relação com o desempenho da memória implícita e o fator atencional.

No capítulo 13, “Metacognição e metamemória durante o envelhecimento: desenvolvimento, avaliação e intervenções sob a ótica da neuropsicologia”, os autores apresentam os modelos teóricos e as formas de avaliação e intervenção da metamemória, a qual é referida como a consciência e o conhecimento que o indivíduo tem sobre seus próprios processos de memória, incluindo sua capacidade de avaliar, monitorar e gerenciar seu desempenho. A metacognição, definida como capacidade de conhecer e controlar os próprios processos cognitivos, assim como a metamemória, está relacionada a possíveis mudanças neuropsicológicas que ocorrem ao longo do envelhecimento.

No capítulo 14, “Desenvolvimento de técnicas de avaliação neuropsicológica para o contexto brasileiro”, as autoras apresentam fatores relevantes sobre a avaliação neuropsicológica, “as etapas necessárias para a construção de instrumentos de avaliação em neuropsicologia cognitiva, tais como o aporte teórico, o estudo das propriedades psicométricas e o desenvolvimento de dados normativos para a população-alvo” (p. 241). Ao longo do capítulo, há uma descrição acerca dos processos de avaliação neuropsicológica formal e funcional, com destaque para quais instrumentos selecionar de acordo com o objetivo da avaliação. Ademais, são apresentados os principais objetivos, as bases teóricas, as propriedades psicométricas e os dados normativos dos instrumentos desenvolvidos ou adaptados pelo grupo NEUROCOG: NEUPSILIN, NEUPSILIN-INF, NEURPSILIN-AF, TRIACOG, BVRT, PROTEA-R, PRÉ-ALFA, ANELE 1, ANELE 2, ANELE 3, ANELE 4, ANELE 5 e PRONUMERO, além de uma análise completa das rigorosas etapas envolvidas no desenvolvimento de alguns desses instrumentos que corroboram sua qualidade.

Finalizando a obra, o capítulo 15, “Reabilitação neuropsicológica nas afasias para além da linguagem”, descreve o planejamento de um processo de intervenção cognitiva global, desenvolvido com base em um estudo de caso de um paciente com afasia, distúrbio da linguagem decorrente de lesões cerebrais, que compromete tanto a compreensão quanto a formulação da linguagem. O capítulo também contempla os prejuízos cognitivos e funcionais extralinguísticos associados, ampliando a abordagem reabilitativa para além dos aspectos exclusivamente linguísticos.

Sobre a autora

Sonia Regina Baptista Cepellos é psicóloga formada pela Faculdade de Psicologia, Ciências e Letras São Marcos/SP. É proprietária e diretora da Ômega Livraria & Psicologia Integrada, em Sorocaba/SP.

Referências

Zortea, M. et al. (2023). Neuropsicologia Cognitiva: modelos teóricos e aplicações em avaliação e intervenção. Vetor Editora.

Pereira, J. S. (2021). Processo de construção e investigação de propriedades psicométricas do Instrumento de Avaliação das Habilidades Precursoras da Alfabetização (Pré-ALFA) em pré-escolares [Tese de Doutorado]. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Baddeley, A. D. (2017). Modularity, working memory and language acquisition. Second Language Research, 33(3), 299-311. https://doi.org/10.1177/0267658317709852

Baddeley, A. D. (2011). Memória de trabalho. In A. Baddeley, M. C. Anderson, & M. W. Eisemck (Eds.), memória (pp.55-81). Artmed.

Baddeley, A. (2007). Working memory, thought, and action. Oxford University Press.

Fuster, J. M. (2003). Cortex and mind: Unifying cognition. Oxford University Press.

Fuster, J. M. (2008). The pré-frontal córtex (4ª ed.). Academic Press.

Salles, J. F., Holderbaum, C. S., Becker, N., Rodrigues, J. C., Liedtke, F. V., Zibetti, M. R., & Piccoli, L. F. (2008). Normas de associação semântica para 88 palavras do português brasileiro. Revista PSICO, 39, 362-370.

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