
por Vinícius Figueiredo de Oliveira
A dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento com prejuízos específicos na aprendizagem da linguagem escrita e que compromete a fluidez e a precisão da leitura de palavras isoladas. Os sinais são observados logo no início da alfabetização, no entanto, a condição permanece por toda a vida, ainda que o paciente tenha apoios pedagógico e neuropsicológico. Apesar disso, o maior foco do diagnóstico e intervenção na dislexia tem sido para a queixa de crianças e adolescentes, de modo que muitos profissionais desconhecem as características dessa condição na vida adulta. É de extrema importância que aqueles que atuam na área da saúde e da educação saibam como se caracteriza a dislexia na adultez, de forma a direcionar as devidas intervenções quando necessário, visto que os déficits decorrentes da dislexia podem limitar o acesso ao ensino superior e à atuação profissional.
Antes de abordarmos a vida adulta, comecemos por entender os déficits característicos da infância. Nos anos escolares iniciais, uma das principais dificuldades que se apresenta para um indivíduo disléxico é na aprendizagem da relação entre os símbolos gráficos e os respectivos sons que representam, por exemplo, que a letra F tem o som /f/. Dessa maneira, o indivíduo apresenta limitações para ler palavras que ainda não conhece, já que ele não é capaz de transformar as letras em sons de uma maneira precisa. Uma outra possível dificuldade é no armazenamento da forma das palavras, isto é, o leitor proficiente não precisa converter letras em sons em todas as palavras que encontra, já que ele reconhece imediatamente a forma ortográfica de palavras já armazenadas. É isso que permite a você ler a palavra “MÃE” imediatamente, sem sequer precisar lembrar quais sons fazem, respectivamente, as letras M, Ã e E. Os dois déficits citados (na conversão das letras em sons e no armazenamento na forma das palavras), quando presentes isoladamente ou em conjunto, comprometem ou atrasam o processo de alfabetização.
Contudo, ainda que eles se apresentem, é possível que o indivíduo disléxico chegue à fase adulta utilizando estratégias compensatórias que o auxiliem no processo de leitura. Nesses casos, as dificuldades, em tal faixa etária, geralmente estão associadas à redução na fluência da leitura, ao comprometimento na produção escrita e textual e ao prejuízo em habilidades narrativas.
Além disso, vale ressaltar outros processos que também podem apresentar alteração em adultos disléxicos. Embora não sejam critérios para diagnóstico, é importante saber que esses sinais frequentemente coocorrem com a dislexia. Entre eles, incluem-se dificuldades na capacidade de lidar com símbolos gráficos; no desenvolvimento da temática textual e da coerência; na produção espontânea de palavras longas, complexas ou pouco familiares; na contagem, recontagem e compreensão de histórias; na interação com o texto e nas inferências; em memória de curto prazo; na aprendizagem de uma segunda língua; e na nomeação de objetos e pessoas.
Ressalta-se que é possível que a escrita esteja preservada, na medida em que a dificuldade pode ser apenas na apreensão das palavras, seus sons e significados, mas não na transformação de palavras em símbolos gráficos escritos. Porém, em muitos casos, há sobreposição entre os dois tipos de déficits (na leitura e na escrita), o que torna a investigação da escrita uma aliada na identificação da dislexia.
No contexto clínico, ao recebermos adultos com suspeita de dislexia, é importante não apenas investigar déficits e queixas atuais, mas também é necessário verificar o histórico acadêmico, bem como a interação do indivíduo com a leitura. É possível que o indivíduo relate que, durante a escolarização, ele teve não apenas dificuldades em aprender a ler e a escrever, mas também ansiedade e constrangimento ao realizar a leitura em voz alta, desmotivação ou rejeição de atividades que exigem leitura, realização de aulas particulares para tentar suprir deficiências acadêmicas, mudanças de escola e repetências.
Com vistas a realizar um diagnóstico preciso de dislexia na idade adulta, as avaliações neuropsicológica e psicopedagógica são altamente recomendadas. São poucos os instrumentos neuropsicológicos padronizados para a avaliação de leitura e prejuízos associados à dislexia em adultos, contudo, nesta faixa etária, é importante avaliar a fluência e a compreensão de leitura, o reconto de histórias, a linguagem e a memória fonológica. Além disso, reitera-se a necessidade de investigar o histórico escolar do indivíduo e sua experiência com a leitura até aquele momento.
Destaca-se que os prejuízos observados variam de pessoa para pessoa, uma vez que dependem do tipo de dislexia e da gravidade, das experiências familiares e escolares, das intervenções realizadas por profissionais da saúde e da presença de comorbidade com outros transtornos. O bom mapeamento das dificuldades apresentadas pelo paciente permitirá a sugestão de intervenções direcionadas e adequadas, o que resultará em melhor prognóstico para o quadro.

Sobre o autor
Psicólogo, mestre pelo programa de pós-graduação em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, e pesquisador pelo Laboratório de Psicologia Médica e Neuropsicologia (LAPSIMN – UFMG).
Referências
Holderbaum, C. S., Lodeiro, C. R., & Basso, F. P. (2017). Dislexia do Desenvolvimento no Adulto. In Salles, J. F. D., & Navas, A. L. (coords.). Dislexias do desenvolvimento e adquiridas (pp. 289-300). Pearson Clínica Brasil.

