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Avaliação Psicossocial x Avaliação de Fatores de Riscos Psicossociais: Diferenças, Indicadores e Práticas para Psicólogos Organizacionais

por Sabrina Guidi Valverde

**O cenário do trabalho no Brasil tem evidenciado, nos últimos anos, um crescimento significativo de adoecimentos relacionados à saúde mental. Dados do SmartLab – Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho – apontam que, em 2023, os afastamentos motivados por transtornos mentais e comportamentais figuraram entre os cinco principais motivos de concessão de benefícios previdenciários, representando cerca de 9% de todas as causas de afastamento do trabalho . Destacam-se, ainda, os transtornos depressivos (com aproximadamente 37.939 afastamentos) e ansiedade (superando 27.191 casos), o que revela a centralidade desse tema nas discussões sobre ambientes laborais saudáveis e proteção ao trabalhador brasileiro.

Em face desse contexto, competências em avaliação de riscos e impactos psicossociais têm se revelado cada vez mais importante para as equipes multiprofissionais – especialmente para psicólogos(as) organizacionais, que devem distinguir cuidadosamente entre a avaliação psicossocial individualizada e a avaliação dos fatores de riscos psicossociais presentes no contexto do trabalho.

Conceituando: Do Individual ao Coletivo

 

A avaliação psicossocial é o processo estruturado que analisa, de modo individual, as condições emocionais, comportamentais, cognitivas e de saúde mental do trabalhador, especialmente nas situações com incremento de risco, como atividades em espaços confinados (NR-33), trabalho em altura (NR-35) ou manipulação de inflamáveis (NR-20). Esse tipo de avaliação busca identificar sinais de vulnerabilidade, resiliência e adequação psicossocial para o desempenho seguro de determinadas funções.

 

Já a avaliação dos fatores de riscos psicossociais, prevista pela NR-1 e NR-17, se debruça sobre os elementos do ambiente e da organização do trabalho – pressões, demandas, relações interpessoais, modelo de gestão, carga de trabalho, entre outros – que podem atuar como estressores ou protetores à saúde mental coletiva. Esse olhar é fundamental para subsidiar programas de prevenção, ações de promoção de saúde e intervenções organizacionais.

 

A compreensão desses dois tipos de avaliação é essencial para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e prevenir adoecimentos e acidentes entre os trabalhadores. A integração dessas avaliações nas práticas organizacionais pode não apenas mitigar os riscos psicossociais, mas também fomentar uma cultura de saúde mental que beneficia a todos os colaboradores. A implementação de estratégias que unam essas avaliações pode resultar em ambientes de trabalho mais seguros e produtivos, promovendo a saúde mental como uma prioridade organizacional.

Dados Atualizados de Adoecimento Mental no Trabalho

 

Segundo o relatório do SmartLab, transtornos mentais e comportamentais representaram, em 2023:

  • Nove por cento dos afastamentos laborais pelo INSS, levando o tema à posição de destaque em saúde ocupacional.
  • Trinta e sete mil novecentos e trinta e nove afastamentos por depressão e 27.191 por transtornos ansiosos, totalizando mais de 65 mil casos apenas nesses dois transtornos.

 

O Brasil figura entre os países com maiores taxas de adoecimento mental laboral da América Latina. A crescente incidência de transtornos mentais no Brasil ressalta a urgência de abordagens eficazes para a avaliação e gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

 

Esses dados reforçam a importância de processos de avaliação robustos e direcionados, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo. A implementação de políticas eficazes para a saúde mental no trabalho é essencial, especialmente em um contexto em que os afastamentos por transtornos mentais representam uma crescente preocupação nacional.

Instrumentos Validados: EBBURN e EVENT

 

A seleção de instrumentos adequados é central para a precisão das avaliações e para o respaldo ético-científico. Destacam-se, no contexto brasileiro, a Escala Brasileira de Burnout (EBBURN) para avaliação psicossocial individual e a Escala de Vulnerabilidade ao Estresse no Trabalho (EVENT) para avaliação de fatores de riscos psicossociais. A utilização desses instrumentos pode proporcionar uma compreensão mais aprofundada dos fatores psicossociais, contribuindo para a formulação de intervenções eficazes e adaptadas às necessidades dos trabalhadores ou ambientes que enfrentam desafios específicos. A adoção de ferramentas validadas é crucial para garantir a eficácia das intervenções e promover um ambiente de trabalho saudável e seguro.

Escala Brasileira de Burnout (EBBURN)

 

Desenvolvida por Cardoso e Gomes, a Escala Brasileira de Burnout (EBBURN) é destinada à avaliação psicossocial do indivíduo, com ênfase nos sintomas e fatores de risco para burnout. A escala contempla duas dimensões: I) Exaustão e Frustração Profissional e II) Despersonalização e Distanciamento. Sua aplicação é indicada para avaliação de rastreio, podendo ser usada especialmente em processos admissionais, periódicos ou em situações de readaptação, para funções de risco descritas em normas regulamentadoras (como NR-33, NR-35 e NR-20). A aplicação da EBBURN é essencial para identificar precocemente sinais de burnout, permitindo intervenções que promovam a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores expostos a situações de risco.

Escala de Vulnerabilidade ao Estresse no Trabalho (EVENT)

 

A EVENT, de autoria de Sisto et al. (2022) é um instrumento para mapear, monitorar e diagnosticar fatores psicossociais do ambiente de trabalho.

 

A escala avalia especificamente:

  • Clima e funcionamento organizacional: analisa a percepção sobre a cultura da empresa, o relacionamento com a liderança, o apoio da equipe e a clareza na comunicação. Um clima organizacional positivo é um importante fator de proteção contra o estresse.
  • Pressão no trabalho: investiga como o colaborador lida com demandas, prazos, metas e ritmo de atividades, permitindo identificar se a pressão atua como estímulo ou como fator de desgaste.
  • Infraestrutura e rotina: mede a satisfação com recursos físicos e materiais, além da organização da rotina de trabalho.

 

Sua aplicação pode embasar o gerenciamento de riscos psicossociais, subsidiar a elaboração do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e apoiar intervenções de promoção da saúde mental organizacional. A escolha da EVENT auxilia a empresa a diagnosticar e antecipar focos de adoecimento coletivo, além de permitir traçar políticas preventivas eficazes.

Quadro Comparativo

 

A tabela a seguir resume as principais diferenças entre os instrumentos EBBURN e EVENT, destacando suas abordagens, seus objetivos e suas aplicações específicas no contexto de avaliação psicossocial e de fatores de riscos psicossociais.

 

A análise comparativa desses instrumentos é fundamental para que psicólogos organizacionais possam selecionar a ferramenta mais adequada às necessidades específicas de cada tipo de avaliação, seja do indivíduo, seja do ambiente de trabalho.

 

Aspecto EBBURN EVENT
Foco Saúde do trabalhador Organização do trabalho
Objetivo Avaliar sintomas e fatores de risco para burnout Avaliar vulnerabilidade ao estresse no trabalho
Dimensões avaliadas Exaustão, frustração profissional, , despersonalização e distanciamento Clima organizacional, pressão no trabalho, infraestrutura e rotina
Aplicação principal Processos admissionais, periódicos, readaptação Diagnóstico organizacional, PGR, intervenções preventivas
Base normativa NR-33, NR-35, NR-20 NR-1, NR-17
Tipo de avaliação Avaliação psicossocial individual Avaliação de fatores de riscos psicossociais

Conheça o teste

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Considerações Finais

 

Os dados de adoecimento mental entre trabalhadores brasileiros, aliando-se às exigências técnicas e legais das normas regulamentadoras, exigem dos profissionais da psicologia organizacional atualização constante e domínio de métodos de avaliação validados.

A escolha adequada das técnicas e ferramentas deve considerar as normas regulamentadoras, a especificidade de cada demanda de avaliação, sempre primando pela atuação baseada em evidências. Estruturar processos de avaliação de maneira clara, ética e contextualizada – selecionando instrumentos como a EBBURN para a avaliação psicossocial e a EVENT para o diagnóstico dos fatores psicossociais – é fundamental para a construção de ambientes de trabalho saudáveis, prevenção do adoecimento e valorização do trabalhador.

Avaliar Psicologia

Sobre a autora

Psicóloga com experiência nas áreas de Gestão de Pessoas, Avaliação Psicológica e Desenvolvimento Humano. Especialista em Gestão de Pessoas e mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC (PPGP/UFSC), desenvolvendo pesquisas sobre fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Atua como docente em cursos de Avaliação Psicológica aplicada a diferentes contextos.

Sócia-fundadora da Avaliar Psicologia, empresa representante das editoras Vetor/Giunti Editora, Hogrefe e Pearson em Santa Catarina. A Avaliar Psicologia fornece materiais para psicólogos, psicopedagogos e demais profissionais da área da saúde, além de desenvolver projetos de consultoria em gestão de pessoas, com ênfase em avaliação psicológica e saúde do trabalhador.

Referências

Cardoso, H. F., & Gomes, M. A. (2022). Escala Brasileira de burnout (EBB): Estrutura interna e controle de aquiescência. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 38, e38517. https://doi.org/10.1590/0102.3772e38517.pt

 

Ministério do Trabalho e Emprego. (2023). Normas regulamentadoras NR-1, NR-17, NR-33, NR-35 e NR-20. https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/normas-regulamentadora/normas-regulamentadoras

 

Sisto, F. F., Baptista, M. N., Noronha, A. P. P., & Santos, A. A. A. (2007). Escala de vulnerabilidade ao estresse no trabalho – EVENT. Vetor Editora. https://www.vetoreditora.com.br/produto/colecao-event-escala-de-vulnerabilidade-ao-estresse-no-trabalho-70438/

 

SmartLab – Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. (2024). Retrato de localidade: Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. https://smartlabbr.org/sst

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