
por Sabrina Guidi Valverde
A saúde mental tornou-se uma questão crítica nas organizações brasileiras. Os dados mais recentes do Ministério da Previdência Social revelam uma realidade preocupante: em 2024, foram registrados mais de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais (Agência Brasil, 2025; Ativa Medicina, 2024), representando um aumento de 68% em relação a 2023 e marcando o maior índice em pelo menos uma década (G1 Globo, 2025). Entre esses casos, a depressão ocupa posição de destaque, sendo a segunda maior causa de afastamento, com 113.604 registros, superada apenas pelos transtornos de ansiedade (Ministério da Previdência Social, 2025).
O Panorama da Depressão no Brasil
Os números são alarmantes. Comparando 2014 com 2024, os afastamentos por transtornos mentais mais que duplicaram, passando de 203 mil para 440 mil casos (Agência Brasil, 2025). Esse cenário reflete não apenas uma crise de saúde mental crescente, mas também mudanças profundas nas estruturas de trabalho e nas pressões enfrentadas pela população brasileira.
A depressão não está circunscrita apenas aos casos que resultam em afastamento. Dados de 2024 de pesquisas nacionais indicam que aproximadamente 56 milhões de pessoas no Brasil (26,8% da população) convivem com transtornos psíquicos em algum grau (ONU Brasil, 2025). Quando consideramos as concessões do auxílio por incapacidade temporária no ano de 2024 por ansiedade e depressão, o INSS contabilizou 302.907 casos entre janeiro e dezembro daquele ano, demonstrando a magnitude do problema na rede pública de saúde (Ministério da Previdência Social, 2025.
Perfil dos Afastamentos e Impactos Ocupacionais
Um aspecto fundamental para a compreensão da crise é o perfil dos trabalhadores afetados. Os dados do INSS permitem traçar um mapeamento: a maioria dos afastados é mulher (64%), com idade média de 41 anos, e passa até três meses afastada do trabalho (Ativa Medicina, 2024). Essa distribuição não é aleatória; fatores estruturais como sobrecarga de responsabilidades familiares, diferenças salariais e pressões sociais potencializam a vulnerabilidade das mulheres aos transtornos mentais (G1 Globo, 2025).
Geograficamente, embora os maiores números absolutos de concessão de benefícios previdenciários acidentários associados à saúde mental estejam nos estados mais populosos como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, proporcionalmente, quando consideramos a relação entre afastamentos e população, os índices mais elevados foram registrados no Distrito Federal, Rio de Janeiro e Santa Catarina
O Papel do Psicólogo Organizacional na Clínica do Trabalho
Diante desse contexto, o psicólogo organizacional que se dedica à clínica do trabalho assume papel fundamental. Sua atuação deve transcender intervenções reativas, focando em ações de rastreio de sintomas depressivos e intervenção precoce. Isso não apenas beneficia o trabalhador individualmente, mas também reduz custos com afastamentos prolongados e contribui para a criação de ambientes organizacionais mais saudáveis.
A importância dessa ação preventiva justifica-se pela própria natureza dos sintomas depressivos. Conforme reconhecido pela literatura científica, os sintomas depressivos podem estar presentes em todos os seres humanos em diferentes níveis de intensidade e duração, existindo como um continuum que vai desde ausência completa até manifestações severas. Isso significa que muitos trabalhadores convivem com sintomas leves ou moderados sem necessariamente apresentarem um transtorno depressivo diagnosticado, mas ainda assim experimentando sofrimento significativo e redução de sua capacidade funcional.
A Escala Baptista de Depressão (EBADEP-A) como Ferramenta de Rastreio
Nesse cenário, instrumentos de avaliação padronizados e cientificamente validados tornam-se essenciais. A Escala Baptista de Depressão – Versão Adulto (EBADEP-A) é um exemplo de recurso que pode potencializar a prática clínica do psicólogo organizacional.
A EBADEP-A foi desenvolvida especificamente para mensurar a presença e a intensidade de sintomas relacionados à depressão, tanto de caráter episódico quanto contínuo (Baptista, 2023). Seu instrumento é composto por 26 descritores distribuídos em 45 itens, respondidos com base em como a pessoa se sentiu nas últimas duas semanas. A escala oferece categorização clara dos níveis de sintomatologia: sem sintomas ou sintomas mínimos, sintomas depressivos leves, sintomas depressivos moderados e sintomas depressivos severos, permitindo uma avaliação dimensional e precisa do estado emocional do trabalhador.
Contribuições da EBADEP-A na Prática Organizacional
A escala pode ser utilizada em diferentes contextos dentro da rotina do psicólogo clínico organizacional:
- Diagnóstico clínico inicial: facilita a identificação precoce de sintomas depressivos em avaliações de entrada, retorno ao trabalho ou em procedimentos de triagem sistemática.
- Monitoramento contínuo: permite acompanhar a evolução dos sintomas ao longo do tempo, verificando a eficácia de intervenções implementadas.
- Triagens em grandes volumes: oferece um método eficiente para programas de rastreio em organizações de grande porte, identificando trabalhadores que necessitam de suporte mais intensivo.
A Importância do Rastreio Sistemático
O rastreio sistemático de sintomas depressivos na prática organizacional vai além da simples identificação de transtornos. Conforme aponta a literatura científica, os sintomas de depressão podem ter consequências negativas nas atividades e relações do cotidiano, incluindo atividades ocupacionais, familiares e de lazer (Baptista, 2023). Além disso, interferem nas relações sociais, provocam alterações cognitivas, afetivas e comportamentais, e podem estar associados a comportamentos de risco, incluindo o comportamento suicida.
Implementar ações de rastreio precoce significa:
- Reduzir o sofrimento individual: possibilitando acesso a intervenções antes que os sintomas se agravem.
- Prevenir afastamentos prolongados: identificando e intervindo em fases iniciais da depressão.
- Melhorar o ambiente organizacional: reconhecendo e abordando fatores de risco ocupacionais que contribuem para o adoecimento.
- Fortalecer a cultura de saúde mental: sinalizando para a organização que saúde mental é prioridade.
Considerações Finais
Os números do INSS não mentem: estamos diante de uma crise de saúde mental nas organizações brasileiras (Ministério da Previdência Social, 2025). Os psicólogos organizacionais que atuam na clínica do trabalho têm a responsabilidade e a oportunidade de fazer diferença por meio de práticas baseadas em evidências científicas.
O uso de instrumentos como a EBADEP-A representa uma evolução importante nessa direção: combina rigor científico com aplicabilidade prática, permitindo que profissionais identifiquem e acompanhem sintomas depressivos de forma sistemática e confiável (Baptista, 2023). Não se trata apenas de aplicar uma escala, mas de reconhecer que a avaliação dimensional e contínua dos sintomas depressivos é fundamental para uma intervenção efetiva.
O futuro da saúde mental nas organizações dependerá não apenas de políticas públicas e mudanças estruturais nas organizações, mas também da dedicação de profissionais que reconhecem sintomas antes que se tornem incapacitantes, que acompanham trabalhadores ao longo do tempo e que utilizam ferramentas científicas para fundamentar suas ações.

Sobre a autora
Psicóloga com experiência nas áreas de Gestão de Pessoas, Avaliação Psicológica e Desenvolvimento Humano. Especialista em Gestão de Pessoas e mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC (PPGP/UFSC), desenvolvendo pesquisas sobre fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Atua como docente em cursos de Avaliação Psicológica aplicada a diferentes contextos.
Sócia-fundadora da Avaliar Psicologia, empresa representante das editoras Vetor/Giunti Editora, Hogrefe e Pearson em Santa Catarina. A Avaliar Psicologia fornece materiais para psicólogos, psicopedagogos e demais profissionais da área da saúde, além de desenvolver projetos de consultoria em gestão de pessoas, com ênfase em avaliação psicológica e saúde do trabalhador.
Referências
Agência Brasil. (2025). Afastamentos por transtornos mentais dobram em dez anos e chegam a 440 mil. Agência Brasil. https://ativamedicina.com.br/afastamentos-por-transtornos-mentais-batem-recorde-em-2024-e-aumentam-pressao-sobre-empresas/
Ativa Medicina. (2024). Afastamentos por transtornos mentais batem recorde em 2024 e aumentam pressão sobre empresas. Ativa Medicina. https://ativamedicina.com.br/afastamentos-por-transtornos-mentais-batem-recorde-em-2024-e-aumentam-pressao-sobre-empresas/
Baptista, M. N. (2023). Escala Baptista de Depressão – Versão Adulto (EBADEP-A): Manual Técnico. Vetor Editora.
G1 Globo. (2025). Crise de saúde mental: Brasil tem maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos. G1 Globo. https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/03/10/crise-de-saude-mental-brasil-tem-maior-numero-de-afastamentos-por-ansiedade-e-depressao-em-10-anos.ghtml
MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. (2025). Painéis Estatísticos Oficiais. Ministério da Previdência Social. https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/previdencia-social/saude-e-seguranca-do-trabalhador/acidente_trabalho_incapacidade/tabelas-cid-10
Organização das Nações Unidas. (2025). Brasil: Afastamentos por problemas de saúde mental aumentam 134%. Organização das Nações Unidas. https://brasil.un.org/pt-br/292926-brasil-afastamentos-por-problemas-de-saúde-mental-aumentam-134
https://smartlabbr.org/sst/localidade/0?dimensao=perfilSaudeMentalAfastamentos

