
por Edgar Pereira Jr
A atuação em Orientação Profissional e de Carreira (OPC) tem passado por transformações profundas, teóricas e metodológicas. Assim como o mundo do trabalho é cada vez mais complexo, mutável e incerto (até mesmo caótico), a OPC precisa responder às exigências da sociedade atual e às trajetórias não lineares que marcam a vida de trabalho das pessoas no século XXI.
Este artigo tem o objetivo de apresentar a perspectiva da evolução da OPC em três paradigmas — da adequação pessoa-meio, passando pelo desenvolvimento de carreira, até a construção de carreira e o Life Design — com base na obra Life Design: um paradigma contemporâneo em orientação profissional e de carreira, publicada pela Vetor Editora.
- O paradigma da adequação pessoa-meio: entre testes e ajustamento
Inicialmente concebida sob a perspectiva da “Orientação Vocacional”, essa área fundamentou-se em uma lógica que buscava identificar as características do indivíduo e combiná-las com as profissões e suas exigências de perfil. Esse modelo, com raízes no início do século XX, foi fortemente influenciado pela psicometria e pelas teorias de traço-fator, notadamente as propostas por Parsons e Holland.
Nesse paradigma, o papel do orientador é predominantemente avaliativo. A intervenção se concentrava na aplicação de “testes vocacionais”, que se traduziam na combinação de testes de personalidade, inventários de interesse e escalas de aptidão, com o objetivo de oferecer uma recomendação assertiva de ajustamento com as necessidades do mercado de trabalho.
Embora ainda utilizado em contextos escolares e processos seletivos, esse paradigma tende a desconsiderar variáveis socioculturais, subjetivas e históricas que atravessam o sujeito, bem como as rápidas transformações do mundo do trabalho e a impossibilidade de colocar as pessoas e os campos profissionais em rótulos predeterminados.
- O paradigma desenvolvimentista: planejamento de carreira ao longo de toda a vida
Com o tempo, emergiram as teorias desenvolvimentistas, com destaque para a influência dos estudos de Donald Super. O segundo paradigma passou a compreender a orientação como um processo contínuo, o conceito de maturidade se torna central, e a escolha deixa de ser um evento pontual na adolescência para ser entendida como parte de um ciclo de desenvolvimento ao longo de toda a vida, da infância até a aposentadoria.
A ênfase aqui estava no planejamento de carreira e na capacidade de responder aos diferentes estágios da carreira profissional, com determinantes pessoais e situacionais. O orientador atuava como facilitador de processos decisórios, ajudando o sujeito a elaborar metas e tomar decisões consistentes com sua fase de vida, papéis que representa, valores e expectativas.
Trata-se de um evidente avanço em relação ao paradigma anterior, ao reconhecer o sujeito como um ser em constante movimento, atravessado por múltiplas demandas e influências. Entretanto, observa-se que esse paradigma ainda mantém uma lógica linear e, muitas vezes, normativa do desenvolvimento humano.
- O paradigma construtivista: o Life Design e a autoria da vida de trabalho
O terceiro paradigma propõe uma ruptura importante. Inspirado principalmente no modelo de Construção de Carreira de Mark Savickas, o Life Design entende a orientação como um processo de autoria narrativa. Aqui, o sujeito não é mais visto como alguém que deve se adequar ou se desenvolver para um mundo previamente estruturado. Ao contrário, é convidado a construir uma trajetória significativa em um cenário fluido, incerto e múltiplo, de infinitas possibilidades.
A prática da OPC nesse paradigma se ancora na reflexividade e na adaptabilidade, com estratégias centralizadas em narrativas autobiográficas e escuta clínica. O orientador se coloca como parceiro na construção de sentido, oferecendo um espaço de acolhimento e reconstrução da história de vida de trabalho, ajudando o cliente a integrar a percepção sobre seus autoconceitos e contextos e formar uma macronarrativa.
Um ponto importante discutido nas formações voltadas a orientadores do século XXI é o reconhecimento de que o Life Design não pretende abolir os testes ou o planejamento de carreira, mas sim ressignificá-los dentro de um processo ético, relacional e alinhado às demandas contemporâneas. Trata-se de devolver ao sujeito a autoria de sua história, reconhecendo-o em sua singularidade e cultura. Adotar o paradigma do Life Design com jovens e adultos implica importantes mudanças de postura: escutar mais do que orientar, propor mais perguntas do que oferecer respostas, sustentar a complexidade em vez de reduzi-la, cultivar sensibilidade para a diversidade e desenvolver familiaridade com o conceito de adaptabilidade de carreira.
Considerações finais
Os três paradigmas da OPC não são excludentes, mas sim evoluções que refletem diferentes momentos históricos e demandas sociais. Em um mundo em que as fronteiras entre vida e trabalho estão cada vez mais insustentáveis, a Orientação Profissional e de Carreira precisa ir além da ideia de “escolha vocacional” e se comprometer com a construção de uma vida de trabalho com autonomia, sentido e propósito. Além disso, quem atua na área deve buscar uma formação teórica atualizada, qualificada e científica com base em uma visão conceitual e contemporânea de carreira e trabalho e com perspectivas teóricas que atuem de forma contextualizada para os dilemas contemporâneos.

Sobre o autor
Psicólogo (CRP 08/34062), Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC) e Educador certificado pelo Google. É Gestor da Orienta Escolha Profissional & Desenvolvimento de Carreira e Coordenador dos Cursos de Pós-Graduação em Psicologia da FAE Business School, com atuação acadêmica e de mercado na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho, com ênfase em Orientação Profissional e de Carreira, Saúde Mental no Trabalho e Gestão de Pessoas.
Referências
Ribeiro, M. A., Teixeira, M. A. P., & Duarte, M. E. (Org.). (2019). Life Design: um paradigma contemporâneo em orientação profissional e de carreira. Vetor Editora.

