
por Ivete Goinski Pellizzetti
O paradoxo da automação: números que impressionam e preocupam
De acordo com pesquisas recentes, entre 51% e 68% das empresas estadunidenses já utilizam alguma forma de IA em seus processos de recrutamento, dependendo da metodologia aplicada (ResumeBuilder.com, 2024; DemandSage, 2025). O mercado global de IA em recrutamento, avaliado em 661,56 milhões de dólares em 2023, projeta alcançar 1,12 bilhão de dólares até 2030, segundo análise da DemandSage. Esses números refletem uma corrida pela eficiência: empresas relatam redução de até 40% no tempo de contratação e economia de 30% nos custos por contratação, conforme dados compilados pela mesma pesquisa.
Entretanto, existe outro lado dessa moeda tecnológica. O estudo da DemandSage também revela que 66% dos adultos estadunidenses afirmam que não se candidatariam a vagas que utilizem IA no processo de decisão de contratação. Essa resistência massiva levanta questões fundamentais sobre o futuro do recrutamento e o papel dos profissionais de psicologia nesse contexto.
A saturação digital: quando a tecnologia afasta talentos
A fadiga digital dos candidatos estadunidenses não surge do vazio. Grandes corporações como Goldman Sachs receberam mais de 315 mil candidaturas para estágios em 2024, ao passo que a Google processou mais de 3 milhões de aplicações no mesmo período. Diante desse cenário, a automação parece inevitável, porém seus efeitos colaterais são evidentes.
Os candidatos relatam sentir-se despersonalizados e reduzidos a palavras-chave em seus currículos. A pesquisa da Resume Now (2025) identificou que 62% dos empregadores rejeitam automaticamente currículos gerados por IA sem personalização, criando um círculo vicioso em que tanto empresas quanto candidatos usam tecnologia, mas desconfiam quando o outro lado faz o mesmo. Essa dinâmica revela uma profunda contradição: 54% dos gestores de RH admitem que se importam quando candidatos usam IA em suas aplicações, de acordo com o relatório da Insight Global (2025), mesmo utilizando essas ferramentas em seus próprios processos.
As preocupações legítimas: viés algorítmico e exclusão
A resistência dos candidatos não é infundada. Cerca de 35% dos recrutadores expressam preocupação de que a IA possa excluir candidatos com habilidades e experiências únicas, conforme levantamento da DemandSage. Adicionalmente, a pesquisa da ResumeBuilder.com (2024) aponta que 47% das empresas acreditam que suas ferramentas de IA introduzem viés relacionado à idade, ao passo que 44% identificam viés socioeconômico, além de percentuais significativos de discriminação por gênero e raça.
Casos emblemáticos reforçam essas preocupações. A HireVue descontinuou seu sistema de reconhecimento facial em 2021 após críticas de que penalizava candidatos com sotaques ou padrões de fala atípicos. A iTutorGroup enfrentou um acordo com a Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego dos EUA por supostamente usar IA para rejeitar automaticamente candidatos mais velhos. Esses exemplos demonstram que, sem supervisão humana adequada, a tecnologia pode perpetuar e amplificar preconceitos existentes.
O papel vital dos testes psicológicos tradicionais
Nesse contexto de tensão entre eficiência tecnológica e humanização do processo seletivo, os testes psicológicos tradicionais emergem como ferramentas fundamentais para equilibrar a balança. Diferentemente dos algoritmos que processam palavras-chave, instrumentos como o QUATI, BFP, testes palográficos e avaliações de raciocínio lógico oferecem uma compreensão profunda e contextualizada do candidato.
Para o psicólogo organizacional, essa é uma oportunidade única de reafirmar seu valor no processo de recrutamento e seleção. Enquanto a IA pode processar milhares de currículos em segundos, apenas um profissional qualificado pode interpretar nuances comportamentais, avaliar fit cultural de forma genuína e identificar potenciais que vão além de competências técnicas listadas em um documento.
Os testes psicológicos aplicados por profissionais habilitados oferecem algo que a IA ainda não consegue replicar: a capacidade de compreender o contexto individual de cada candidato. Testes psicológicos como o palográfico, QUATI e BFP são ferramentas estabelecidas no mercado brasileiro que oferecem uma abordagem complementar à análise automatizada, embora ainda faltem estudos comparativos sobre sua eficácia versus ferramentas de IA. O teste G-38 avalia capacidades cognitivas de modo que considera o nervosismo natural de um processo seletivo, algo que uma IA poderia interpretar erroneamente como falta de competência.
A integração inteligente: tecnologia e psicologia trabalhando juntas
O futuro do recrutamento não precisa ser uma escolha binária entre tecnologia e humanização. Emil Palikot, Ali Ansari e Ada Aka, pesquisadores da Stanford University em colaboração com Nima Yazdani da University of Southern California, demonstraram em experimento publicado pelo World Economic Forum (2025) que candidatos que passaram por entrevistas conduzidas por IA tiveram taxa de sucesso de 53,12% em entrevistas humanas subsequentes, comparado a apenas 28,57% daqueles selecionados apenas por triagem de currículo tradicional. Isso sugere que a IA pode ser uma ferramenta valiosa quando usada como complemento, não substituto, da avaliação humana.
Para os psicólogos que trabalham com RH, isso significa uma oportunidade de evolução profissional. Em vez de resistir à tecnologia, podem se posicionar como os profissionais essenciais que garantem o uso ético e eficaz dessas ferramentas. São eles que podem desenvolver protocolos que combinem a eficiência da IA na triagem inicial com a profundidade dos testes psicológicos nas etapas decisivas do processo.
Lições dos EUA para o mercado brasileiro
O que está acontecendo nos Estados Unidos serve como um laboratório valioso para o mercado brasileiro. À medida que nossas empresas também começam a adotar ferramentas de IA em seus processos seletivos, podemos aprender com os erros e acertos estadunidenses.
A mensagem é clara: candidatos valorizam o toque humano no processo seletivo. Um estudo mostrou que 78% dos gestores de RH consideram detalhes personalizados como sinal de interesse genuíno e adequação à vaga. Isso reforça a importância de manter elementos humanos e avaliativos profundos no processo, mesmo quando utilizando tecnologia para ganhar eficiência.
Para empresas que comercializam testes psicológicos, como a Psi Testes, esse cenário representa uma oportunidade de se posicionar como ponte entre a eficiência tecnológica e a profundidade humana. Os testes psicológicos tradicionais não são obsoletos; pelo contrário, tornam-se ainda mais valiosos como garantia de que o processo seletivo mantenha sua dimensão humana e ética.
Recomendações para psicólogos e profissionais de RH
Diante desse cenário em transformação, algumas diretrizes emergem para os profissionais da área:
- Mantenha o elemento humano central: mesmo ao adotar ferramentas de IA, garanta que decisões críticas passem por avaliação humana qualificada. Os testes psicológicos devem ser aplicados em momentos estratégicos do processo para validar e aprofundar as análises iniciais.
- Transparência é fundamental: candidatos têm o direito de saber quando e como a IA está sendo usada no processo seletivo. Seja claro sobre o papel da tecnologia e dos profissionais humanos em cada etapa.
- Invista em formação contínua: psicólogos organizacionais devem buscar compreender as ferramentas de IA disponíveis, seus benefícios e limitações. Isso permite uma integração mais eficaz entre tecnologia e avaliação psicológica tradicional.
- Monitore e corrija vieses: Estabeleça protocolos regulares de auditoria tanto para ferramentas de IA quanto para processos tradicionais, garantindo que nenhum grupo seja sistematicamente desfavorecido.
- Valorize a experiência do candidato: em um mercado no qual 40% dos profissionais de RH temem que a automação torne o processo impessoal, investir em uma experiência positiva para o candidato torna-se um diferencial competitivo.
Conclusão: o futuro é híbrido
A resistência dos candidatos estadunidenses à IA no recrutamento não é uma rejeição à tecnologia em si, mas um pedido por processos mais humanos e justos. Para os psicólogos brasileiros que atuam em RH, isso representa uma validação da importância de seu trabalho e uma oportunidade de liderar a transformação digital do recrutamento de forma ética e eficaz.
Os testes psicológicos, longe de se tornarem obsoletos, emergem como elementos essenciais para garantir que a revolução tecnológica no RH não perca de vista seu objetivo fundamental: conectar as pessoas certas às oportunidades certas, respeitando a complexidade e dignidade humana em cada etapa do processo.
O futuro do recrutamento e seleção não será dominado nem pela tecnologia pura, nem pelos métodos tradicionais isolados, mas por uma integração inteligente que aproveite o melhor de ambos os mundos. Nesse futuro, o psicólogo organizacional equipado com ferramentas de avaliação psicológica robustas será mais necessário do que nunca.

Sobre a autora
Ivete Goinski Pellizzetti, CRP 08/01832, é neuropsicóloga e pedagoga; psicóloga na Psi Testes – Cascavel, colaboradora da padronização do WISC IV no Brasil; especialista em psicologia escolar/educacional pelo Conselho Federal de Psicologia; especialista em educação especial e psicologia da infância; coordenadora do CRAPE – Centro Regional de Apoio Pedagógico Especializado Cascavel – PR.
Referências
HR Grapevine USA. (2024, outubro). “Employers increasingly turning to AI to handle recruitment process”.
DemandSage. (2025, junho). “AI Recruitment Statistics 2025 (Worldwide Data & Insights)”.
MSH. (2025). “How AI Is Changing Recruitment In 2025”.
SmartRecruiters. (2025, abril). “44 Statistics on AI in Recruitment for 2024”.
HeroHunt.ai. (2025). “The Ultimate Guide to AI for Recruitment Agencies”.
Korn Ferry. (2024, agosto). “AI in Recruiting 2024: Pros and Cons”.
Insight Global. (2025). “2025 AI in Hiring Survey Report”.
World Economic Forum. (2025, março). “Hiring with AI doesn’t have to be so inhumane. Here’s how”.
WhatJobs. (2025, junho). “AI in Recruitment 2025: How Artificial Intelligence is Changing Hiring”.
Oleeo. (2025, abril). “AI in Recruitment: The 2025 Clear Guide to Everything You Need”.
Resume Now. (2025, junho). “Resume Now Survey: 62% of Employers Reject AI-Generated Resumes Without Personalization”.
GoodTime. (2025, abril). “Tech Hiring Trends in 2025: AI, Automation, and Candidate Experience Rule”.
ResumeBuilder.com. (2024, dezembro). “7 in 10 Companies Will Use AI in the Hiring Process in 2025, Despite Most Saying It’s Biased”.
Korn Ferry. (2024, dezembro). “AI in Talent Acquisition: Top Challenges for 2025”.

