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Bams e Ravlt: Um Casamento de Avaliação das Memórias Declarativas
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Bams e Ravlt: Um Casamento de Avaliação das Memórias Declarativas

A senescência traz consigo algumas queixas de idosos quanto à percepção de desempenho cognitivo. Muitas vezes, é comum observar que a capacidade de aprendizagem de novas informações pode se tornar mais lentificada com o passar dos anos, em que alguns episódios podem se tornar mais frequentes, como esquecer o nome de alguém, perder as chaves. Desta forma, alguns acontecimentos revelam preocupações para quem se aproxima dos 65 anos de idade, quanto ao seu desempenho de memória.  Mesmo quem não desenvolve demência, experencia algumas mudanças associadas ao longo do processo de envelhecimento, em que a memória é uma das funções da cognição mais vulneráveis e a mais percebida com mudanças com o avançar da idade (Abrisqueta-Gomez, 2013). Por essa razão, importantes pesquisas tornaram-se indispensáveis testes neuropsicológicos, contribuindo na prática clínica com o auxílio de identificação e nomeação de desempenho cognitivo.

A recém-lançada Bateria de Avaliação da Memória Semântica, Bams, dos renomados autores Laiss Bertola e Leandro Malloy – Diniz é a primeira nacional de avaliação deste domínio cognitivo, e veio preencher uma lacuna para as avaliações neuropsicológicas em idosos, promovendo maior detalhamento do sistema semântico, contribuindo com o diagnóstico diferencial e refinando o processo avaliativo. A Bateria veio para somar com outro importante instrumento de avaliação da memória: o RAVLT. Por quê? Qual o motivo de utilizar os dois testes de memória? Tal resposta merece um retorno à definição de memória e de seus componentes.

Referimo-nos à memória quando ocorre um processo de aquisição, formação, conservação e evocação de informações. A memória tanto dos humanos, quanto dos animais é provida por experiências. Hoje, sabemos que é mais sensato falar em memórias do que memória, visto que a ciência já nos provou que há tantas memórias quanto possíveis experiências (Izquierdo, 2018). Com um olhar para nossas vivências, recordamos, por exemplo, que um conteúdo acadêmico, muitas vezes, demanda semanas, meses para ser consolidado em aprendizagem, enquanto outras experiências, como um acidente e o nascimento de um filho, entre outros, geram memórias súbitas e de fácil recordação.

Isquierdo (2018) pontua que falar em sistemas e funções nos leva a pensar em memórias, pois podemos designar cada uma delas e seus tipos, visto que possuem mecanismos diferentes. Há declínios em diferentes tipos de memórias que podem sugerir transtornos específicos, algumas, por exemplo, são mais moduladas pela emoção enquanto outras atuam com formas de esquecimento.

Ter memórias interconecta-nos a nossas experiências de vida. Sem tal capacidade de armazenamento de novas informações ou possibilidade de evocar experiências previamente estocadas, leva-nos a uma vida em dissolução, sem passado, presente ou futuro mental. Há uma grande evidência da importância da memória como uma função de senso de si próprio, como uma identidade (Tabaquim e Rodrigues, 2015).

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As memórias podem ser classificadas de acordo com sua função, tempo que duram e seu conteúdo, vamos nos ater às memórias avaliadas pela BAMS e pelo RAVLT, os dois instrumentos avaliam a memória de longo prazo declarativa, que é dividida em dois subdomínios: semântica e episódica.

Para ilustração, serão apresentados apenas os sistemas de memória de longo prazo, lembrando que há um importante caminho da informação anterior até chegar à memória a longo prazo, passando, por exemplo, pela memória sensorial e memória de trabalho.

Sistema de memória de longo prazo adaptado de De Paula e Malloy-Diniz, 2018

Basicamente, as memórias de longo prazo são compostas por conteúdo declarativo e não declarativo. As memórias avaliadas pela BAMS e pelo RAVLT encontram-se no conteúdo declarativo que pode ser dividido em dois subdomínios: semântico e episódico. A memória de  longo prazo declarativa é a que armazena e evoca informações de fatos e de dados, de modo que possamos declarar o que sabemos evocar explicitamente. Cada um de nós se recorda de forma consciente, sendo dividida pelo seu tipo de conteúdo.

A memória declarativa semântica, avaliada pela BAMS, corresponde aos conhecimentos gerais acerca dos fatos, conceitos, ideias palavras, podemos pensar que essa memória atua como nosso “dicionário mental”. Permite saber, por exemplo, o que é uma banana, o que é uma cadeira, dá-nos nome ao que tornamos conhecido. Já a memória episódica, avaliada pelo RAVLT, está relacionada a eventos e episódios de experiências. Ela permite trazer à tona nossas recordações, por ela lembramos de uma boa viagem, por exemplo, e no geral experiências durante a vida inteira.

Interligando as duas memórias, uma pessoa sem declínios pode falar sobre algo que viveu e lembrar claramente o nome das palavras para construir sua narração de lembranças. Se eu falho nas duas memórias, provavelmente não vou conseguir mais dizer as que coisas que aprendi e teria dificuldades em acessar minhas lembranças, pela memória episódica.

Tais memórias podem ser afetadas em quadros de Alzheimer, transtorno bipolar, doença de Parkison, depressão e outros transtornos neurocognitivos. Assim, o uso dos dois testes pode refinar o diagnóstico clínico, aumentar a possibilidade de fechar diagnósticos mais precisos, pois alguns quadros têm mais declínio na semântica enquanto outros na memória episódica.

Um sólido casamento para a avaliação da memória de longo prazo declarativa em idosos, pois os profissionais que atuam com idosos podem prestigiar, contribuindo com suas importantes avaliações e diagnósticos clínicos para nossa população.

Referências

Abrisqueta-Gomez, J. (2013). Memória e envelhecimento cognitivo saudável. In L. Malloy-Diniz, D. Fuentes, & Consenza R. (Orgs.), Neuropsicologia do Envelhecimento: Uma abordagem multidimensional: Porto Alegre, RS: Artmed.

Bertola, L. & Malloy-Diniz, L. (2019). Bateria de Avaliação da Memória Semântica. São Paulo, SP: Vetor.

Isquierdo, I. (2018). Memória. Porto Alegre, RS: Artmed.

Tabaquim, M. & Rodrigues, S. (2015). Memória e aprendizagem. In M. Ciasca, S. Rodrigues, C. Azoni, & R. De Lima (Orgs.). Transtornos de Aprendizagem: Neurociência e Interdisciplinaridade. Ribeirão Preto, SP: Book Toy.

Autora: Ariane Bizzarri – CRP 06/116766

Minicurrículo: Mestranda em Saúde do Adulto e Idoso pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). Neuropsicóloga pelo Conselho Federal de Psicologia – CFP, pós-graduada em Neuropsicologia aplicada à Neurologia infantil pela UNICAMP e em Neuropsicologia pela Faculdade Única de Ipatinga. Treinamento realizado em avaliação psicológica infantil no ambulatório de Psiquiatria da Unicamp com avaliações psicológicas e neuropsicológicas, elaboração de laudos e devolutivas a equipe médica, pacientes e familiares. Atua com avaliação neuropsicológica no ambulatório de Geriatria e Gerontologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí FMJ e psicóloga do Departamento de Produtos e Pesquisa da Vetor Editora.

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