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Resenha: Abuso e trauma
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Resenha: Abuso e trauma

por Carlos Eduardo Bovenzo Filho

Abuso e trauma: Efeitos da Desordem de Estresse Pós-Traumática e Desordem de Múltipla Personalidade

 

A Obra “Abuso e Trauma”, de Ilma Ribeiro Silva, foi publicada no ano de 2000 pela Vetor Editora. É composta por dez capítulos que, por meio de uma linguagem clara, tece importantes considerações e perspectivas acerca do trauma enquanto chaga psíquica.

No primeiro capítulo, A Sociedade, a emoção e a vítima, a autora promove a breve conceituação sobre as emoções, enfatizando o diálogo dessa reação quando há a presença de traumas.

Estes, por sua vez, são inerentes à vida humana e geradores de possíveis patologias, desconfortos, reações intensas e defensivas, justificáveis pela definição trazida por Laplanche e Pontalis (2001), na qual o trauma se refere a um afluxo excitatório intenso e de difícil elaboração psíquica, dado que abarca uma experiência além daquilo suportado pelo sujeito.

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Assim, essa primeira parte da obra também conta com breves comentários acerca das práticas de intervenções psicológicas e psiquiátricas (como tentativas imediatas de sanar a sintomatologia do trauma) e sobre traços comuns de pessoas acometidas pelo atual Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT, referido na obra como Desordem de Estresse Pós-Traumática – DEPT) (APA, 2014).

Em A história escrita com terror e sangue, Silva (2000) estabelece um diálogo entre a histeria, estudada por grandes nomes como Charcot, Freud e Breuer, e a presença de sintomas desta nos soldados de guerras, fragmentando o viés institucionalizante da histeria como “desordem feminina”, oriunda de situações traumáticas.

Em termos relacionais, cita-se que “Histeria, como vimos, foi o prognóstico do DEPT” (Silva, 2000, p. 26), ao notar que soldados que retornaram da guerra demonstravam os mesmos sintomas das mulheres histéricas, mas que vinham precedidos de um quadro de TEPT.

A partir da Guerra do Vietnã, os estudos sobre esse transtorno se ampliaram para outros tipos de traumas, acometidos por violência doméstica, acidentes, abuso sexual infantil, sobreviventes de acidentes etc.

 

O imaginário como solução

No capítulo O imaginário como solução, terceiro desta obra, Silva (2000) expõe, inicialmente, a importância do imaginário para o reconforto diante de uma realidade insuportável, isto é, para estabelecer um diálogo com o leitor, a autora coloca em evidência as religiões como meios que proporcionam ao sujeito aquilo que a família e/ou a sociedade não oferece, podendo, inclusive, servir de referencial da figura paterna outrora ausente, id est, versando a imposição de limites que enovelam o sujeito por tratativas rígidas.

O quarto capítulo, Mulher e criança, as vítimas do silêncio, já em termos de título, destaca a realidade da atual instauração da violência, e.g., a dinâmica silenciosa que permeia os casos de abuso sexual infantil, gerando aquilo que se conhece como Síndrome do Segredo (Furniss, 1993, citado por Rovinski & Pelisoli, 2019), na qual a criança abusada, por medo das retaliações do abusador, não revela o que se passa (Florentino, 2015).

Ademais, neste capítulo há a menção do evento traumático como polo “desativador” das defesas da vítima, refletindo em manifestações expressivas, desse infortúnio, ao longo de sua existência. Por fim, há a exposição de um estudo de caso envolvendo abuso sexual, menções ao TEPT, à Desordem de Múltipla Personalidade (DMP), atualmente conhecida como Transtorno Dissociativo de Identidade (CID F-44.81) (APA, 2014), e outras possíveis consequências e aspectos contratransferenciais do terapeuta.

 

Contratransferência do terapeuta vítima

No que diz respeito ao capítulo 5, Contratransferência do terapeuta vítima, a autora aborda a complexidade que tange o atendimento de uma vítima traumatizada, bem como as possibilidades contratransferenciais, isto é, sentimentos evocados no terapeuta em decorrência da problemática trazida em sessão.

Silva (2000) traz, também, uma série de perguntas (“testes”) direcionadas aos psicoterapeutas, de modo que possam colocar em evidência aspectos que, talvez, estejam regendo sua esfera contratransferencial.

Com isso, este capítulo, além de informativo em termos da dinâmica traumática, é preponderante para o municiamento de psicoterapeutas que dedicam o cuidado à subjetividade de pessoas acometidas por traumas, sobretudo de abuso sexual.

Em Abuso no trabalho, o assédio sexual insistente, Silva (2000) tece considerações iniciais acerca do conceito de abuso e violência, caracterizando o primeiro como manifestações crônicas de comportamentos danosos. Feito isso, a autora transpõe o conceito de abuso para o ambiente de trabalho, estabelecendo foco nos assédios sexuais em mulheres e suas possíveis consequências.

No sétimo capítulo da obra, A complexidade da memória sob o efeito, são expostas considerações conceituais acerca da memória e seu posterior funcionamento diante de situações traumáticas, por exemplo, a retenção dos fragmentos da situação que ocasionou o trauma e que ainda se fazem vivos no sujeito.

Silva menciona o Traumatic Memory Inventory (TMI), que “examina a retenção de memória traumática de modo sistemático e indaga sobre as lembranças de modo sensorial ou afetivo (…) e o que faz essas lembranças fluírem (…)” (Silva, 2000, p. 84).

Por fim, a autora discute sobre pesquisas relacionadas aos comportamentos de memória e a não associação de que determinadas ações possuem ligação com o evento traumático.

 

A psicobiologia da memória traumática

No oitavo capítulo, intitulado A psicobiologia da memória traumática, Silva (2000) prossegue com suas considerações acerca do acometimento traumático em termos mnésicos, porém sob a ótica biológica, abarcando, e.g., a alteração da estrutura hipocampal e das amigdalas dos pacientes acometidos por traumas.

Essas considerações permitem ao leitor uma corroboração diante do constante diálogo “corpo” e “psiquismo” quando se trata de situações traumáticas, integrando a atual visão que se tem do sujeito como ser biopsicossocial.

Em Dissociação e Desordem de Múltipla Personalidade, nono capítulo da obra, Silva (2000) delineia como cerne do trauma a memória reprimida e, posteriormente, discorre brevemente sobre alguns cuidados que o psicoterapeuta deve ter ao conduzir pacientes acometidos por TEPT. Neste capítulo, é dada ênfase ao Transtorno Dissociativo de Identidade (Desordem de Múltipla Personalidade – DMP) como “forma aguda de dissociação, uma defesa contra o ambiente patológico ou contra um trauma (…)” (p. 96), bem como são estabelecidas explicações acerca do manejo clínico do paciente com DMP.

 

Dissociação, transe e crença.

No último capítulo, Dissociação, transe e crença, a autora introduz sobre a sociedade pré-industrial e a industrializada, nas quais há diferenças entre as formas de relacionamento coletivizado ou, então, voltadas àquilo que o sujeito produz ou faz, isto é, de “quem é você”, para hoje, “o que você faz”. Entre esses modelos sociais existem perspectivas distintas sobre transtornos psicológicos/emocionais.

A autora discorre sobre o papel da cultura, especificamente as religiões, como formas de lidar com estresse e trauma, equiparando com muita parcimônia, maestria e cuidado a função de um templo religioso e de um trabalho psicoterapêutico diante do enquadramento e da integração de um paciente traumatizado.

A referida autora proporciona ao leitor, em poucas páginas, um amplo panorama no que diz respeito à dinâmica do trauma e seus desdobramentos na vida do indivíduo.

Além disso, houve clareza e cuidado na abordagem da prática clínica em psicologia nas situações delicadas, como o TEPT e o TDI, buscando, também, a discussão sobre o sujeito e sua constante relação com a sociedade e a cultura, bem como um pensar dialógico diante da influência desses dois fatores na condição trauma.

Trata-se de uma leitura recomendada para aquele que se preocupa com a dor psíquica e que, para acolhê-la, busca o aprimoramento zeloso de seu arcabouço teórico-técnico.

 

Carlos Eduardo Bovenzo Filho

Departamento de Produtos e Pesquisa

Psicólogo pela Universidade Universus Veritas – UNG (CRP 06/148842). Técnico Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Violência – Psicologia Jurídica e Núcleo de Estudos em Psicologia (NUPEV-PJ e NEPSI – UNG). Colaborador do Departamento de Produtos e Pesquisa da Vetor Editora.

 

REFERÊNCIAS

American Psychiatric Association [APA]. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (5.ª ed.). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

Florentino, B. R. B. (2015). As possíveis consequências do abuso sexual praticado contra crianças e adolescentes. Fractal, Revista de Psicologia, 2(2), 139-144. Recuperado de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922015000200139&lng=pt&nrm=iso

Laplanche, J., & Pontalis, J. B. (2001). Vocabulário da psicanálise (4.ª ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes.

Rovinski, S. L., & Pelisoli, C. (2019). Violência sexual contra crianças e adolescentes: testemunho e avaliação psicológica. São Paulo, SP: Vetor.

Silva, I. R. (2000). Abuso e trauma: efeitos da Desordem de Estresse Pós-Traumática e Desordem de Múltipla Personalidade. São Paulo, SP: Vetor.

 

Livro Abuso e trauma

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Neste trabalho dois fatores estão destacados: as conseqüências do abuso e o tratamento dos traumas.

Este é um livro que qualquer pessoa, profissional ou não poderá ler se estiver interessada em se conhecer e conhecer melhor a natureza humana. Trauma, tragédia e abuso contrapõem-se a compaixão, solidariedade e capacidade que temos para curar uns aos outros.

 

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