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Teleneuropsicologia com Marina Nery: Entrevista
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Teleneuropsicologia com Marina Nery: Entrevista

Entrevista Sobre Teleneuropsicologia com Marina Nery

1- O que é teleneuropsicologia?

A teleneuropsicologia (TeleNP) é definida como a prestação de serviços de avaliação neuropsicológica utilizando tecnologia de comunicação audiovisual. A avaliação é realizada por via remota utilizando plataformas confiáveis de comunicação e toda a tecnologia possível para essa modalidade.

A teleneuropsicologia tem ganhado força e ampliado a sua prática internacionalmente, visando suprir a necessidade desse serviço diante as interrupções e diminuição dos atendimentos presenciais orientados pela Organização Mundial de Saúde em decorrência da pandemia.

2- A teleneuropsicologia é viável?

A literatura científica internacional disponibiliza diversos artigos indicando que a teleneuropsicologia pode oferecer avaliações confiáveis e válidas. São estudos anteriores à pandemia de 2020, que já investigavam a possibilidade de uma avaliação remota.

Em uma revisão sistemática realizada por Brearly e colaboradores (2017) eles observaram que os testes verbais não apresentaram diferenças nos resultados das avaliações sendo realizadas por via remota ou presencial. No entanto, outro estudo aponta divergências em decorrência das variáveis ambientais que são mais difíceis de serem controladas através da teleneuropsicologia.

O profissional precisa considerar as limitações dessa modalidade e orientar os pacientes em relação a elas. Deve utilizar estratégias e fazer um atendimento prévio para minimizar as interferências ambientais e acrescentar um termo de consentimento, descrevendo sobre a modificação da avaliação padrão e os entraves desta modalidade para as conclusões e hipóteses diagnósticas.

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Embora já existam artigos científicos indicando a prática, é preciso reconhecer que, até o momento, as evidências são limitadas, embora promissoras.

 

3- Quais as suas limitações?

As principais barreiras são referentes à tecnologia. Alguns podem se limitar pela pouca familiaridade com as plataformas online ou uso de computadores, e outros pela prática de navegação em vários sites simultâneos aumentando os distratores durante a avaliação.

Pessoas com nível socioeconômico mais baixo também podem se limitar pela falta de acesso a dispositivos tecnológicos ou mesmo a conexões de internet. Outra barreira está relacionada a gravidade dos sintomas neuropsicológicos ou a algum comprometimento específico que inviabiliza a avaliação por teleneuropsicologia.

Alguns casos só serão possíveis de serem avaliados com uma pessoa de apoio na casa, auxiliando o paciente e profissional na viabilidade de realizar uma atividade.

Os distratores ambientais também são fatores limitantes. Para minimizá-los é fundamental que o clínico oriente os familiares e organize o espaço que será disponibilizado na casa para as sessões de teleneuropsicologia. Nesta prática é preciso ter uma sessão prévia, com os familiares e paciente, para orientações e para verificar a viabilidade de termos resultados confiáveis com as limitações observadas em cada caso.

Os testes psicológicos com normatização para avaliação remota na população brasileira também são limitados, no momento, para investigarmos todos os construtos necessários na avaliação neuropsicológica. A avaliação neuropsicológica padrão já deve ser realizada analisando os sintomas através da tríade composta pelos resultados de testes psicológicos e inventários, observação do comportamento e história de vida.

Na teleneuropsicologia, a avaliação ecológica, observação do comportamento, análise do discurso juntamente com os testes padronizados para essa modalidade, permitem direcionar, orientar e avaliar todo o processo de funcionamento cognitivo.

4- Todos os pacientes podem se beneficiar com a teleneuropsicologia?

Infelizmente alguns grupos sofrem mais interferências com a teleneuropsicologia. Indivíduos com acessos limitados às plataformas tecnológicas, além de idosos e crianças pequenas. Em alguns casos, o atendimento nesta modalidade não será viável, ou mesmo será contraindicado.

Deve-se considerar com cautela o maior benefício para o paciente e as necessidades emergenciais da avaliação por via remota ou aguardar uma avaliação convencional.

Casos emergenciais podem ser relacionados à necessidade da avaliação visando um benefício econômico, de liberação de medicação, impostos ou prestação continuada, bem como ao risco de não avaliar considerando que o período que o paciente ficar parado possa ser prejudicial ao seu prognóstico e evolução. Exemplos desta última situação são os quadros de rápida progressão, ou mesmo pré ou pós cirúrgicos.

5- A teleneuropsicologia é uma prática em conformidade com os aspectos éticos e legais?

Existe uma resolução, CFP11/2018, que regulamenta a prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação e da comunicação. Nesta resolução são autorizadas as prestações de serviços por meio tecnológico, entre eles estão autorizados a atuação do psicólogo por via remota na avaliação, orientação e/ou intervenção em processos individuais e grupais, sendo na avaliação autorizado a utilização de instrumentos devidamente regulamentados e com parecer favorável do SATEPSI.

No entanto, a prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação está condicionada à autorização do Conselho para cada profissional que tem o interesse em atender através desta modalidade, e para isso o clínico deve realizar um cadastro prévio junto ao Conselho de Psicologia.

 

6- No que a teleneuropsicologia se difere da avaliação face a face?

As competências relacionadas ao processo de avaliação neuropsicológica são necessárias nas duas modalidades, no entanto, para a prática de teleneuropsicologia deve-se considerar um treinamento para o desenvolvimento de competências básicas para esta modalidade.

É fundamental que o profissional desenvolva competências para o manuseio e orientações aos pacientes, sobre as plataformas de tele atendimento, questões regulatórias da profissão, conformidades com a HIPAA, questões éticas, incluindo consentimento informado, procedimentos de segurança, questões técnicas e estratégias pragmáticas sociais para comunicar empatia por uma tela de vídeo.

Para o tele atendimento é preciso considerar:

  1. Os dispositivos tecnológicos e de conexão estão adequados para a avaliação remota?
  2. Adotei uma plataforma que me garante a confidencialidade e segurança dos dados?
  3. Familiares e pacientes estão de acordo com o atendimento em TeleNP, consentindo após as orientações e explicações sobre as limitações de testagem nesta modalidade, riscos de confidencialidade e privacidade, e possibilidades de interrupção do atendimento diante a observação de que a avaliação remota não está sendo apropriada para o caso?
  4. O paciente é capaz de responder e ser avaliado por esta interface?

 

O planejamento do atendimento deverá considerar a necessidade de um apoio no local da sessão. Isso vai exigir uma orientação a esse facilitador sobre o quanto ele pode auxiliar e no que ele irá auxiliar. O local que o avaliando ficará durante as sessões também deve ser combinado previamente e observado a cada sessão, eliminando todos os estímulos distratores do ambiente.

Durante a avaliação deve ser documentado todos os problemas tecnológicos de desconexão, interrupções e atrasos de áudio e vídeo, além das interrupções ambientais como sons de familiares, animais domésticos, dentre outros. Estas anotações devem estar presentes no procedimento do laudo psicológico.

A seleção de testes deve considerar os testes e instrumentos devidamente regulamentados e com parecer favorável do SATEPSI para aplicação remota.

 

7- Qual a aceitação dos pacientes e familiares da avaliação por tele atendimento?

Hague e colaboradores (2018) realizaram um estudo comparando a teleneuropsicologia e avaliação face a face com 44 pacientes pediátricos e investigaram o quanto as pessoas se sentiam confortáveis e satisfeitas com cada uma das modalidades de avaliação.

A grande maioria se mostrou satisfeita ou neutra pela avaliação em teleneuropsicologia, sendo que mais de 15 % demonstrou preferencia pela avaliação remota e mais de 60% não relataram uma preferência, e poderiam fazer tanto por tele atendimento como face a face.

Estes dados são animadores e promissores, quando associamos literaturas que mostram viabilidade com bons resultados e uma boa aceitação pelo público que será avaliado. “Embora a prática em teleneuropsicologia seja desafiadora, ainda assim não é intransponível ou proibitiva no que diz respeito à nossa capacidade de atender as necessidades do momento atual e garantir a continuidade do atendimento às pessoas a quem servimos” (INS, 2020).

 

Marina Nery

Psicóloga pela PUC-Goiás; especialista em Neuropsicologia pelo CFP; Mestre em
Ciências do Comportamento pela UnB; Neuropsicóloga Clinica há 20 anos, atuando na
avaliação e reabilitação Neuropsicológica; Diretora de Ensino e Pesquisa do Núcleo de
Ensino e Pesquisa em Neurociência; Coordenadora da pós graduação de
Neuropsicologia e de Reabilitação Neuropsicológica do NEPNEURO, Coordenadora da
pós graduação de Neuropsicologia da Dalmass; Membro da Diretoria da Sociedade
Brasileira de Neuropsicologia, na gestão 2017 a 2019, na função de Conselheira fiscal.

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