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As relações de trabalho e o impacto na saúde mental do trabalhador

por Alessandra Pinatti Kinjo

As relações de trabalho e o impacto na saúde mental do trabalhador

O conceito de saúde mental é amplo e leva em consideração diversos determinantes da vida humana.

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2014) definiu saúde mental como o estado de bem-estar no qual cada indivíduo percebe seu próprio potencial, consegue lidar com o estresse normal da vida, pode trabalhar de maneira natural e frutífera e é capaz de fazer contribuições para sua comunidade.

O mundo do trabalho sofreu alterações tecnológicas e sociais em função da globalização e das alterações econômicas mundiais. Esse novo contexto de trabalho traz algumas reivindicações, com aumento na produtividade e maior complexidade nas atividades desenvolvidas, pressões de tempo, além de relações tensas e precárias, o que pode gerar tensão e fadiga nos colaboradores.

Essas mudanças ocorridas nas relações de Trabalho podem criar os fatores psicossociais, os quais são descritos pela Organização Internacional do trabalho (OIT) como os aspectos presentes na interação dinâmica entre o trabalhador e seu trabalho. De um lado, o trabalhador com suas experiências, vivências e necessidades; do outro, os aspectos relacionados ao trabalho – ambiente, conteúdo e tarefas.

Essa interação pode ser positiva, quando oferece suporte, proteção e promoção de saúde aos trabalhadores, ou negativa, quando se torna ameaçadora e perigosa para o trabalhador – nesse caso, têm-se os chamados de fatores de riscos psicossociais.

As organizações com a preponderância de fatores protetivos no ambiente de trabalho estão ligadas à ideia de apoio e ajuda, potencializando a competência emocional, por exemplo, bem-estar no trabalho, práticas positivas de liderança, recompensa e reconhecimento, relacionamentos interpessoais saudáveis, satisfação e sentido no trabalho.

Segundo Santos (2021) , os fatores protetivos podem estar relacionados a três aspectos:

  1. o trabalho em grupo, quando o colaborador pode desabafar e compartilhar suas experiências (tanto positivas como negativas) com outros colegas, fornecendo apoio emocional;
  2. a promoção do equilíbrio entre vida profissional e familiar;
  3. a promoção da autonomia para os trabalhadores e a possibilidade de gerenciamento de tempo e manejo das atividades fazem que os trabalhadores se enxerguem como sujeitos ativos na instituição.

Segundo a OIT , pode ser difícil avaliar e identificar esses fatores de riscos psicossociais porque eles são representados pelas percepções e experiências dos trabalhadores e influenciados não somente pela organização e pelo conteúdo do trabalho, mas, também, pelo cenário social e econômico.

Nessa interação, quando o desequilíbrio prevalece e o trabalhador não apresenta condições internas para lidar com esses fatores, podem-se gerar distúrbios emocionais, comportamentais e problemas à saúde.

Alguns dos sintomas relacionados à exposição dos fatores de riscos psicossociais estão relacionados a ansiedade, depressão, problemas do sono, isolamento, abuso de substâncias psicoativas, agressividade, inibição da capacidade de concentração e tomada de decisão.

Além das consequências à saúde, é possível perceber danos físicos (como alterações no sono, apetite, dores no corpo, distúrbios digestivos), danos sociais (como agressividade, isolamento, conflitos familiares) e danos psicológicos (como a sensação de vazio, tristeza e solidão).

Existem condições de trabalho que podem aumentar a ocorrência dos riscos psicossociais, tais como cargas de trabalho excessivas, falta de clareza na definição das funções, falta de participação na tomada de decisões que afetam o trabalhador e falta de controle sobre a maneira como executa o trabalho, má gestão de mudanças organizacionais e insegurança laboral, comunicação ineficaz, falta de apoio de chefias e colegas, relações interpessoais difíceis, existência de assédio, agressão e violência e dificuldade em conciliar o trabalho e a família.

Os fatores de riscos psicossociais podem deixar o trabalhador em situação de maior vulnerabilidade e colocá-lo em risco de adoecimento.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) , os transtornos mentais são a terceira principal causa de concessão de benefícios previdenciários para trabalhadores com registro formal.

Em geral, esses transtornos decorrem dos fatores de riscos psicossociais e, com base nos dados da Previdência Social, observou-se que em 80% dos afastamentos de trabalhadores por problemas de saúde mental se estabeleceu nexo de causalidade associado aos diagnósticos de depressão, ansiedade e transtornos de estresse.

A OIT e a OMS recomendam que os governos e as empresas implementem estratégias de prevenção para reduzir o número de acidentes e de doenças relacionadas ao trabalho.

Essa monitoração dos fatores de riscos psicossociais pode ocorrer por meio da análise do trabalho, seus riscos e suas consequências, com observação direta, medidas estáticas e qualitativas que permitam explorar a percepção dos trabalhadores sobre as condições e a natureza do trabalho.

A construção de saúde no ambiente corporativo passa pela possibilidade de vivenciar o prazer e a satisfação individual do colaborador, assim como o uso de estratégias de mediação de seu sofrimento, promovendo melhorias nas condições de trabalho e na comunicação e apoio entre gestores e trabalhadores.

A saúde e a segurança devem constituir um valor estratégico para toda a comunidade organizacional. Políticas e práticas criteriosas para o estabelecimento de metas, cargas de trabalho e descanso, responsabilidade e autonomia, recursos e conhecimentos, comunicação e transparência, respeito e confiança, interpessoais, participação e apoio, expectativas e motivações favorecem o desempenho e são promotores de ambientes laborais seguros e saudáveis (Zanelli, 2019).

Surge a necessidade de implementação de boas práticas para desenvolvimento e construção de ambientes saudáveis e de gestão dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

 

Referências

Jacinto, A., Huck, C., Garcia, M., & Tolfo, S. R. (2020). Fenômenos psicossociais relacionados ao Trabalho: promovendo saúde e monitorando riscos. In S. R. Tolfo (Org.), Gestão de pessoas e saúde mental do trabalhador: fundamentos e intervenções com base na psicologia. São Paulo, SP: Vetor.

Monteiro, J. K., Alberici, G., Böttcher, E., & Henrich, P. Conhecimentos sobre os fatores psicossociais no trabalho: um estudo com gestores da indústria brasileira. In S. R. Tolfo (Org.), Gestão de pessoas e saúde mental do trabalhador: fundamentos e intervenções com base na psicologia (pp. 203-243). São Paulo, SP: Vetor.

Peuker, A. C. W. B, & Faller, S. (2021). Fatores psicossociais protetivos . In A. C. W. B. Peuker & S. Faller (Orgs.), Avaliação psicológica dos fatores psicossociais do trabalho: teoria e prática na era digital (pp. 87-105). São Paulo, SP: Vetor.

Zanelli, J. C., & Kanan, L. A. (2019). Fatores de risco, proteção psicossocial e trabalho: organizações que emancipam ou que matam (2a ed.). Lages, SC: Tuniplac.

 

Alessandra Pinatti Kinjo

Psicóloga com mestrado em Avaliação Psicológica pela USP. Experiência com: recrutamento e seleção em todos os níveis e avaliação psicológica voltado para seleção, perfil profissional e assessment. Conhecimento e habilidade com vários instrumentos psicológicos, realizando laudos e feedbacks.

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